Quem conta o outro lado da história? Esse é o título de um manifesto artístico produzido por Marielle e Michelle Bonetti, as Manas Bonetti. A obra busca resgatar a história dos povos originários que foram dizimados no Sul catarinense, principalmente em Urussanga e região. Contemplada pela Lei Paulo Gustavo, a obra foi doada ao município de Urussanga e agora está instalada na área externa do Centro Cultural, no Parque Municipal Ado Cassetari Vieira. A inauguração da exposição aconteceu no último sábado, dia 26. “A gente está às vésperas de comemorar os 150 anos da imigração italiana no próximo ano, e assim é um tema delicado, porque a gente poderia dizer que seria um lado um tanto sombrio da história dessa colonização da imigração italiana”, destaca Marielle.

Muitas famílias da região enaltecem a história da imigração italiana e de seus antepassados descendentes de europeus, mas muitas pessoas esquecem que as terras já eram habitadas antes da chegada dos imigrantes. “É de conhecimento que eles (imigrantes) também foram enganados, foram feitas uma série de promessas antes de eles chegarem ao Brasil, e aí não era exatamente aquilo que se era esperado. Mas, por outro lado, alguém já habitava essas terras. O Brasil não foi descoberto, já existia alguém que ocupava esse território. Então, é preciso que a gente conheça melhor o passado, essa história, até para não repetir esses erros”, salienta Marielle.

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Conforme as artistas, realmente houve um extermínio de indígenas durante o período de formação da colônia Azambuja, na qual Urussanga fazia parte. Segundo Marielle, o próprio governo, durante a demarcação das terras para a formação das colônias, financiava a contratação dos bugreiros, conhecidos por exterminar os indígenas, chamados pejorativamente de bugres. O objetivo era aumentar a área de desmatamento para cultivo. “Desde o processo de criação do projeto, quando a gente foi contemplada, a gente fez todo um trabalho de pesquisa bibliográfica”, reforça a artista. “A gente tem aqui muito essa visão unilateral do indígena atacando o imigrante italiano, mas aí não sobrou nenhum indígena para contar o outro lado da história”, acrescenta. “Eles foram sendo encurralados até ao ponto de serem exterminados, e aqueles que sobreviveram tiveram que deixar o território para conseguir sobreviver”.

Segundo Michelle, a cultura italiana, alemã e outras culturas europeias são muito faladas na região, mas a própria cultura indígena não é tão valorizada quanto. “A gente acabou suprimindo aquilo que existia em terras brasileiras antes da chegada dos imigrantes europeus. A gente tem essa dívida histórica de resgatar essa cultura também, reconhecer essas diferenças e trazer isso para uma convivência harmônica”, comenta. “O mosaico, que é a nossa arte, nos ensina isso. A gente tem que conviver com essas diferenças, buscar essas misturas enriquecidas de materiais, das diferenças humanas e trazer isso para essa arte”, complementa. Conforme as Manas, todas as pesquisas e as ideias foram apresentadas ao artista plástico César Pereira, que também é natural de Urussanga, para a realização da arte gráfica do projeto.

As Manas Bonetti participaram de uma entrevista especial no programa Ponto de Encontro e falaram sobre a importância da obra e do processo de criação. Ouça na íntegra e saiba mais:

 

O manifesto artístico é composto por dois painéis em mosaico, que medem 64x122cm cada e somam 1,5m2 de área musiva. O primeiro painel possui a imagem do bugreiro, instituindo o lado perverso da história. Conforme Marielle, não bastava apenas assassinar os indígenas, os bugreiros arrancavam as orelhas das pessoas como uma espécie de troféu. “Ele tem o indígena assassinado no primeiro plano, e, no lugar da orelha, justamente a gente traz uma cruz, que, ali, para a gente, simboliza a morte, essa perversidade, atrocidade que foi cometida com os indígenas”, conta. “No segundo painel, a gente traz a indígena com a filha abraçada, ajoelhada, no chão, protegendo a criança, porque os homens, em geral, eram praticamente todos assassinados, e as mulheres e as crianças, eventualmente, eram salvas para serem sequestradas, para serem domesticadas ou até, infelizmente, abusadas”, explica Marielle sobre a arte das obras.

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