No Brasil, a cada cinco crianças e adolescentes conectados, uma já vivenciou algum tipo de violência online, segundo o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Esse dado é destacado no artigo “A violência online cresce: ciência brasileira precisa avançar”, escrito pela doutora e psicóloga Ana Ludmila Freire Costa, publicado pela Agência Bori. Para a especialista, o primeiro passo para entender o assunto é ter a real dimensão do que está acontecendo hoje no mundo. “Se você para pra pensar que a cada cinco crianças brasileiras, uma já tenha passado por isso, a gente está começando a prestar atenção de como esse fenômeno está, tanto em termos de dimensão, magnitude, quanto em termos de impacto, como isso está muito forte aqui, não só no Brasil, mas no mundo como um todo”, comentou. “Eu diria que o primeiro ponto é prestar atenção no que está acontecendo, ter noção desses dados de incidência, de prevalência e dos impactos que isso tem causado”, acrescentou.
Ana Ludmila salientou ainda sobre os dados de violência sexual online, um fenômeno também global. Segundo a especialista, não há limites geográficos quando o assunto é a Internet. “Mais do que esforços nacionais, algo que precisa ser feito é essa articulação global, de pensar como enfrentar essa violência sexual online articulada entre os diversos países”, falou. “Claro que os países têm sua soberania, eles têm suas formas de funcionamento e depende também dessas regulações internas. Nós temos exemplos de vários países que já estudam isso e já se preparam para isso, já fazem esse enfrentamento há bastante tempo. A gente tem países como Inglaterra, Estados Unidos, Austrália, Canadá, que são referências nesse enfrentamento e que a gente está se inspirando nessas experiências”, acrescentou a psicóloga.
A doutora também pontuou que, apesar da violência sexual online ser um fenômeno global, as incidências acontecem de formas diferentes. “As vulnerabilidades que estão presentes em certos países, os recursos que os países têm para fazer esse enfrentamento são diferentes”, disse, acrescentando que, nesse sentido, o Brasil ainda tem o que avançar para conseguir lidar com o problema e enfrentar ele de forma mais adequada. O programa Ponto de Encontro abordou mais sobre o tema em entrevista com a doutora Ana Ludmila. Ouça na íntegra e saiba mais:
A especialista explicou que a violência online pode ocorrer de diversas formas, inclusive a sexual. Um deles é o aliciamento, também conhecido com o termo ‘grooming’. “Seria uma criança que está usando uma determinada mídia social, um certo jogo, e ela é abordada por uma pessoa, geralmente um adulto, que tenta estabelecer uma relação de confiança com essa criança, com esse adolescente e, uma vez que estabelece essa relação de confiança, passa a exigir benefícios, passa a cobrar diante de ameaças, que seja a produção de imagens íntimas dessa criança ou adolescente. Uma vez de posse dessas imagens íntimas, ameaça a divulgação dessas imagens em troca de dinheiro ou então pressiona, tenta fazer uma coerção com essa criança, adolescente, para se encontrar pessoalmente e aí estabelecer também uma violência sexual presencial, física”, contou, salientando que há, inclusive, casos que o adulto exige uma performance da criança na internet, uma forma de abuso que é transmitida de forma online através de plataformas de streaming. “Não é nada tão submundo como a gente imagina, por isso que a gente fala da importância da regulamentação dessas plataformas”, disse.
A psicóloga ainda alertou que o objetivo não é demonizar a Internet, que também possui suas funcionalidades e benefícios para inúmeras pessoas. “Não se trata de negar todos esses benefícios da Internet. Um ponto importante é que o direito digital também é um direito das crianças e adolescentes. Esse direito de acessar esse benefício produzido, permitido pela Internet, também deve ser usufruído pelas nossas crianças e adolescentes, por isso que as abordagens proibitivas não têm muita eficiência”, frisou. “Não se trata de proibir esse acesso, mas de regular. O nosso ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, comenta que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e são sujeitos em condição peculiar de desenvolvimento e isso se aplica para tudo. Isso significa que a sociedade precisa proteger, promover seus direitos, precisa proteger, precisa cuidar, precisa orientar. E isso também se aplica ao uso da Internet. Não se trata de negar o acesso das crianças e adolescentes, mas se trata de orientar, explicar, acompanhar”, salientou, completando que é necessário que as famílias se atentem ao tipo de conteúdo consumido por crianças e adolescentes na Internet e com quem elas estão interagindo.




































