O uso irregular de medicamentos para emagrecer tem preocupado especialistas da área da saúde. Segundo a pesquisadora e professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ana Paula Gines Geraldo, essas medicações foram desenvolvidas para o tratamento da obesidade, considerada uma doença crônica, e não para uso indiscriminado. “Muitas pessoas acabaram vendo essas medicações como uma possibilidade de perder aqueles quilinhos, né, que elas têm dificuldade e, muitas vezes, sem orientação e acabam comprando de forma, muitas vezes, ilegal, por atravessadores, sem receita, sem acompanhamento médico, sem acompanhamento com nutricionista”, alertou.
Para a nutricionista Bruna Izidro, do Colégio Satc, essas medicações foram desenvolvidas para atuarem diretamente no controle da fome e da saciedade, sendo indicadas principalmente para pacientes com índices elevados de IMC. “São medicamentos que vieram de um uso para pessoas com diabetes. E foi visto que um dos efeitos era o emagrecimento. Então, ela é uma medicação muito boa, mas é uma medicação que ela precisa ter um cuidado, um olhar centrado no paciente. Por isso, um acompanhamento médico é muito importante”, explicou.
A especialista relatou que, ao reduzir a fome, o medicamento pode levar a uma diminuição significativa da ingestão alimentar, o que exige atenção. “Mas não é porque ela não sente fome que ela não deve se alimentar, não é? Afinal de contas, nós temos todos os processos metabólicos e fisiológicos que o nosso organismo precisa cumprir diariamente. E essas funções, elas dependem de nutrientes. E esses nutrientes, eles vêm da alimentação. Por isso, uma alimentação equilibrada e saudável é fundamental para o sucesso do tratamento”, frisou Bruna. Confira mais detalhes:
Ana Paula destacou ainda que, apesar de os medicamentos apresentarem resultados positivos na perda de peso, o uso sem acompanhamento pode trazer consequências preocupantes à saúde. “É uma perda de peso que não foi planejada, que não foi programada e, muitas vezes, as consequências podem acontecer, inclusive, com o tempo, para o futuro. Então, eu vejo com muita preocupação. A Anvisa já vem atuando para que isso não venha a acontecer, mas a gente sabe que tem muitas pessoas, não só aqui no estado de Santa Catarina, mas no Brasil inteiro tem feito essa prática”, disse Ana, chamando atenção para a comercialização irregular de medicamentos sem registro. Ouça mais:
A pesquisadora afirmou que a popularidade desses medicamentos está relacionada à busca por soluções imediatas. “São resultados de muitos e muitos anos de estudo, de muito investimento da indústria farmacêutica e elas realmente entregam um resultado muito importante. Elas entregam mais de 20% de perda de peso e num curto espaço de tempo. Então, muitas pessoas chamam de canetas milagrosas, só que elas precisam ser acompanhadas de uma mudança de estilo de vida, mudança de hábitos e muitas pessoas não querem fazer isso. Então, as pessoas muitas vezes buscam nessas medicações um resultado rápido e milagroso, mas não é isso, não é isso que nós queremos. Nós queremos um tratamento que seja multidisciplinar”, acrescentou Ana.
Bruna também comentou que, na prática, observa casos de uso inadequado, como dosagens erradas, o que compromete os resultados. “Tenho conhecimento de alguns casos de pessoas que usam por conta, usam uma dose errada e aí o emagrecimento não vem ou emagrece e depois recupera tudo de novo. Perde cinco quilos e depois ganha oito”, exemplificou.
As especialistas reforçaram que a obesidade é uma condição multifatorial e que o tratamento deve ser individualizado. “As pessoas querem utilizar como um atalho e a medicação não deve ser vista como um atalho, mas sim como uma ferramenta dentro de uma estratégia maior”, finalizou Ana Paula.






































