A diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Essa famosa frase é do médico e físico suíço-alemão Paracelso, que viveu entre 1493 e 1541. A constatação ainda vale para os dias atuais, principalmente com o crescente número de pessoas se automedicando sem orientação especializada. De acordo com o doutor Guilherme Canever, as medicações possuem o chamado índice terapêutico, caracterizada como uma dose de segurança. “Ela permite que eu trabalhe com doses um pouco menores, um pouco maiores, mas nós temos também algumas substâncias de índices terapêuticos estreitos, ou seja, é aquela dosagem, se passar um pouquinho a mais, ela já vira o veneno. Então, por isso, o médico tem que estar sempre atualizado nas mudanças de medicações e sempre orientando a importância de não se automedicar”, salientou o médico.

A famosa frase de Paracelso vale para todas as coisas: do remédio até água em excesso. “Não é só com a medicação de farmácia, quanto a medicação fitoterápica, qualquer substância, desde álcool, água, qualquer tipo de bebida, qualquer tipo de substância química, tudo acima faz mal”, pontuou. Mas o doutor Guilherme reforçou mais sobre a questão do medicamento. “Quando nós tomamos um remédio, muitos deles fazem um metabolismo que nós chamamos de primeira passagem, ou seja, ele vai ativar a partir do momento em que ele passar pelo fígado. O fígado fará a ativação dessa medicação”, disse. “É importante lembrar que esses nossos órgãos são constantemente afetados. Nós temos a metabolização da medicação através do fígado, nós temos a metabolização através dos rins, ou seja, o rim vai excretar também. Se eu tomar medicação demais, o meu rim vai trabalhar mais e é como se fosse um motor de carro. Se ele trabalha mais acelerado do que ele precisa, vai chegar um momento que vai dar problema, vai precisar de manutenção”, acrescentou.

A dor de cabeça é um exemplo de situação em que as pessoas costumam se automedicar. Segundo Canever, a grande maioria das dores são tencionais, geradas pela preocupação do dia a dia. “Está com dor de cabeça? Não tem problema em tomar o remédio, não tem mesmo. O problema passa a aparecer a partir do momento em que eu começo a medicar e não vejo melhora, ou que eu vejo piora. Por exemplo, existem casos de dor de cabeça crônica que são causadas, pasmem, pelo excesso de analgésicos. Ou seja, a pessoa toma tanta medicação que acaba tendo dor de cabeça. É meio que um paradoxo assim”, comentou. O doutor ainda citou o exemplo do paracetamol, no qual há a possibilidade de intoxicação se a pessoa tomar muitas pílulas ao mesmo tempo. “Hoje as apresentações estão vindo com cada vez menos comprimidos para ter um risco menor de ingestão acidental, principalmente em medicações para a criança”, frisou.

Canever esclareceu ainda que o uso prolongado de analgésicos e anti-inflamatórios pode causar graves consequências. “Desde intoxicação simples até a morte, principalmente o uso de anti-inflamatórios”, alertou. “O grande lance é o seguinte: tomou sete, dez dias, resolveu? É uma inflamação simples que foi tratada, foi curada. Se persistiu o sintoma tem mais coisa, então tem que partir para um exame”, afirmou. O assunto foi abordado com mais detalhes com o doutor Guilherme Canever no programa Ponto de Encontro. Ouça na íntegra e saiba mais do tema:

 

A principal recomendação é buscar orientação de um profissional médico. “Se nós pensarmos em um paciente que chega com uma queixa de cansaço, falta de ar e tontura, o nosso leque se expande para uma série de possibilidades terapêuticas, de possibilidades diagnósticas. Ou seja, nós precisamos investigar desde o início, como que é a vida desse indivíduo, quais são os hábitos de vida, quais são as suas rotinas. Porque esse tipo de sintoma pode ser uma crise de ansiedade, pode ser um problema cardíaco, pode ser um problema respiratório agudo, ou seja, em um prazo curto de cinco, sete dias, já pode ser um problema respiratório crônico que se manifesta depois de muitos anos”, citou.