Santa Catarina possui relação com uma emblemática figura histórica que representa o poder feminino. Nascida em Laguna, no Sul do Estado, Ana Maria de Jesus Ribeiro, ou, Anita Garibaldi, como é conhecida, foi a heroína dos dois mundos. A história da heroína segue inspirando novas gerações e sendo relembrada por meio de iniciativas culturais e artísticas. Um dos exemplos é a participação da jovem atriz Ana Lívia Aguiar Nascimento, que interpretou a Anita Garibaldi, a Aninha, aos 14 anos de idade, no espetáculo ‘A Tomada de Laguna’. “Foi uma pesquisa bastante aprofundada porque desde pequena eu sempre tive esse interesse de saber quem é a Anita, o porquê ela é tão representada aqui na minha cidade e o porquê ela é tão homenageada nos outros países como no Uruguai, na própria Itália, em Roma”, disse Ana Lívia em entrevista. “Ela foi uma menina muito diferente do tempo dela, ela foi uma menina à frente”, falou ainda.

Ana Lívia contou que tem o sonho de ser atriz profissional e poder interpretar a Anita adolescente no espetáculo A Tomada de Laguna foi um importante passo dado. “Um tempo que era totalmente diferente. As meninas, jovens de 14 anos, meninas muito novas tinham que se casar pela parte financeira e social. As meninas eram tratadas como objetos ou moedas de troca e para a Anita não foi tão diferente. Aos 14 anos ela perdeu o pai, que é o Bento, ou mais conhecido como Bentão, e ela foi usada como uma moeda de troca para ajudar a família, porque a parte financeira estava muito conturbada e ela tinha que ajudar os seus oito irmãos”, destacou a atriz sobre a história de sua personagem. “Ela teve que se casar com um sapateiro e o relacionamento entre os dois era totalmente não correspondido e também não igualitário porque o sapateiro tinha um pensamento direcionado à parte imperial, ou seja, da parte militar, e ela pensava na parte revolucionária, a parte da democracia”, acrescentou.

No último sábado, 7 de março, representantes do setor cultural de Laguna estiveram presentes em Urussanga para o plantio da Rosa de Anita. A planta híbrida foi desenvolvida por pesquisadoras na Itália. A Rosa de Anita integra o projeto internacional “Anita Fidelis”, do Centro Studi Olim Flaminia, da Itália, e gerenciado no Brasil pelo Instituto Cultural Anita Garibaldi. O símbolo representa as entidades que aderem à iniciativa e reforça ações e campanhas de combate ao feminicídio e a todas as formas de violência contra a mulher. A atriz Ana Lívia, junto com as Guardiãs de Anita, esteve em Urussanga. A atriz participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e falou mais sobre como foi interpretar a jovem Anita. Ouça na íntegra:

 

A heroína dos dois mundos

A diretora do grupo Guardiãs de Anita, Ivete Scopel, falou mais sobre a importância de Anita Garibaldi. “Para contar a história de Anita não é em meia hora, precisa de muitas horas, às vezes até dias, porque o que ela fez em 27 anos… É uma mulher incomparável”, comentou. Segundo Ivete, desde nova Anita já possuía ideias revolucionárias. “O tio dela, que era de Lages, que era um tropeiro, passava sempre por Laguna e ele ficava na casa de Aninha, ele contava da revolução que estava eclodindo, a revolução do Rio Grande do Sul e ela ficava brilhando os olhos, porque ela sempre foi uma menina diferente”, disse, acrescentando que, apesar de ser analfabeta, Anita sempre teve muita consciência. “Depois, quando ela conheceu o Garibaldi, a consciência dela floresceu. Mas, antes disso, ela sofreu muito porque ela foi obrigada a casar com 14 anos”, pontuou.

Conforme Ivete, Anita foi muito assediada por homens durante a sua adolescência. Em uma dessas ocasiões, Anita foi até a delegacia para denunciar o assédio de vários rapazes. “Só tinha policiais homens na época e ela foi ridicularizada”, falou. “As outras meninas viviam de vestidinho bonitinho, iam à missa, se comportavam. Ela não, ela era um pouquinho rebelde, assim, mas ela não queria também ser assediada por ninguém”, comentou. “E, hoje, às vezes eu fico pensando, 200 anos atrás, claro, ela foi fazer uma queixa e foi ridicularizada. Mas até pouco tempo não existia as delegacias de mulheres aqui. E, até hoje, as pessoas ainda criticam a vítima por andar de saia curta, por andar de shorts, por estar em um horário que não deveria estar na rua. Então, mudou porque hoje nós temos delegacia de mulheres, mulheres policiais, que acolhem, que buscam compreender, mas ainda está muito difícil”, analisou.

Anita Garibaldi faleceu aos 27 anos de idade. “Morreu fugindo dos austríacos, morreu de febre, grávida de cinco meses”, contou Ivete. “Ela lutou por quatro repúblicas, uma mulher analfabeta, quatro repúblicas: República Catarinense, Rio Grandense, Uruguaia e Romana”, complementou. “Ela passou muita necessidade, mas ela foi muito feliz. Ela amava, apaixonadíssima por ele. Então o amor e a luta foi a vida dela. Ela lutou muitas vezes, inclusive na Itália ela ajudou o Garibaldi. A unificação da Itália foi devido a ela, claro que foi unificado 50 anos depois, mas a luta era essa”, observou Ivete. A diretora também participou de entrevista na Rádio Marconi e falou sobre a Anita Garibaldi. Ouça na íntegra:

 

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