Gratidão e perdão. Esses sentimentos de reconhecimento marcaram a trajetória de superação de vida de Andrea Stone, de 46 anos. Natural do Rio Grande do Sul, Andrea mora em Içara há 12 anos e usa a sua história de vida para o empoderamento de outras mulheres. Formada em Assistência Social, ela atua como esteticista facial e atualmente está no primeiro semestre da faculdade de biomedicina. Em um especial na semana do Dia Internacional das Mulheres, o programa Ponto de Encontro contou a história de Andrea em entrevista. Ouça na íntegra:

Parte 01

 

Parte 02

 

Quando criança, com apenas um ano, Andrea e suas irmãs foram abandonadas pela própria mãe. Ela e uma de suas irmãs, três anos mais velha do que ela, passaram a morar com o pai e a madrasta. Vivendo uma realidade muito triste, Andrea conta que, aos dois anos, ela e sua irmã dormiam em um berço. Mesmo sendo muito nova, ela relata que ainda lembra da cena e dos sentimentos que teve. O berço era pequeno para duas crianças já maiores, ela ainda lembra que os lençóis brancos estavam encardidos de sujeira e dos insetos que passavam por ali. Em uma noite, no escuro, afirma que se deitou e chorou ao ver a realidade em que estava.

A madrasta maltratava muito as duas irmãs. Andrea relata que quando ela saía para trabalhar, deixava a casa trancada e as duas irmãs tinham que ficar na rua. Com muita fome, as duas andavam pelas ruas em busca de alimento. Na época, a irmã pegava as velas de sétimo dia que estavam em encruzilhadas e fazia de conta que eram pequenos pedaços de bolacha quando elas estavam derretidas, e dava para a mais nova comer. A madrasta também batia muito nelas, o que fazia com que elas ficassem com muitas feridas pelo corpo. A irmã protegia a mais nova, dizendo a madrasta para que batesse duas vezes nela, mas que não batesse na Andrea. Por isso, Andrea frisa que a irmã é uma mãe para ela.

Certa vez, quando ela já tinha 6 anos, o pai viu a situação em que elas estavam e decidiu que levaria elas para os cuidados da avó paterna. A terceira irmã, a mais velha, já morava com a avó e agora as três passariam a conviver juntas. Andrea conta que sua avó passou semanas tirando toda a sujeira que tinha no seu corpo e no seu cabelo, além disso, ela chegou a casa da avó com raquitismo e desnutrição.

“Em seguida eu tive uma doença, que foi uma pontada de pneumonia, nos dois lados do pulmão, e aí ela me levou para o hospital. A avó era muito humilde, muito pobre, mas eu lembro que ela juntou as economias dela e nós fomos de táxi por conta da gravidade que ela tinha que me levar. E eu lembro, nós dentro do táxi, a vó passou a mão em mim e disse ‘minha filha, não te preocupa, tu vai ficar boa’. E eu olhei pra ela, eu olhei e não chorei, eu não falei nada, eu só falei isso, então hoje quando eu escuto aquela menina de 6 anos, me emociona, por uma menininha falando aquilo. Mas eu já superei, eu disse assim para a minha vó ‘não se preocupa comigo, não se preocupa se eu morrer porque eu não tenho mãe no mundo’”, relata.

Andrea e suas irmãs foram vítimas de pedofilia praticada pelo próprio avô dentro de casa. Dos 6 aos 11 anos, Andrea era abusada e ameaçada pelo familiar. Na época, ela não contava à ninguém sobre a violência sofrida, mas hoje ressalta a importância das pessoas contarem os seus abusos para alguém que possa ajudar. “O abusador normalmente está muito próximo da família, isso eu gosto de ressaltar porque as pessoas têm que cuidar das suas crianças porque a gente nunca sabe, a criança não vai falar, eu não falei. Hoje eu falo para me libertar porque ele já faleceu e foram coisas que eu fiquei aqueles anos todos sem contar”, comenta.

Por volta dos 15 anos, Andrea teve um relacionamento abusivo com o seu primeiro namorado. O namorado a maltratava psicologicamente e fisicamente. O homem possuía um ciúmes doentio e não deixava Andrea fazer muitas coisas. “Até que um dia, nós não estávamos mais juntos, e ele pediu para que voltasse para ele, aí eu disse não e ele me pegou pelo pescoço e me grudou na parede, e eu com o pescoço apertado, me sufocando, eu disse ‘é melhor tu me matar, porque se tu não me matar eu vou direto na polícia”, conta. “Não sei te dizer, mas aquilo ali foi libertador para mim, simplesmente aquela pessoa sumiu da minha vida e eu segui em frente”, completa.

Anos se passaram e Andrea seguia pela busca da independência e autoconhecimento. Então conheceu o seu atual esposo, no qual juntos têm duas filhas, a Marina, filha biológica, e a Maria Antônia, filha adotiva. Hoje, Andrea realiza palestras e alerta outras mulheres sobre relacionamento abusivo e infantil para que elas não passem pelo mesmo. Apesar de toda as dificuldades da infância e adolescência, Andrea conta que desde os 7 anos sempre rezava e agradecia a Deus pelas coisas que tinha e que hoje é grata pela mulher que se tornou e por conseguir passar o seu relato e ajudar a tantas outras pessoas.