Com um valor de venda que não supre os custos de produção, a cebolicultura catarinense vem enfrentando uma crise em Santa Catarina. De acordo com o vice-presidente da Associação Nacional de Produtores de Cebola (Anace) e também vice-presidente da Associação de Produtores de Cebola de Santa Catarina (Aprocesc), Jelson Gesser, essa crise já dura um pouco mais de um ano e meio. “Hoje, para se ter uma ideia, o produtor rural está comercializando a cebola em uma média de 70 centavos o quilo. Então fica muito abaixo do custo de produção e acaba, assim, desanimando os produtores até porque já é o segundo ano que isso acontece. Isso nunca aconteceu até hoje na história e, infelizmente, a gente está diante de uma crise muito severa”, analisou Jelson. Conforme o produtor rural, na região Sul não existe uma outra cultura subsequente à cebola que seja tão interessante quanto ela para o agricultor. “Ele fica empenhado basicamente um ano inteiro em função da cultura principal, que é a cebola. Depois da cebola, geralmente, o produtor às vezes coloca uma cultura subsequente, mas é uma cultura de menor representação econômica, como um cereal, milho, soja ou até uma própria adubação verde”, explicou.

Jelson esclareceu que a cebola catarinense fica principalmente no mercado nacional. Segundo o produtor, a exportação da cebola ainda é muito tímida, sendo exportada certas quantidades para o Paraguai, Argentina e outros países do Mercosul. “Aqui no Brasil, por incrível que pareça, nós temos algumas janelas durante o ano que falta uma quantia de cebola e, muitas vezes, a gente acaba importando”, contou. Em entrevista, o vice-presidente da Anace e Aprocesc falou sobre possíveis incentivos dos governos para contribuir com os produtores da cebola. Gesser explicou que as associações têm buscado apoio governamental, principalmente dos setores estaduais e federais. “No momento atual que se encontramos, a gente precisa estar buscando uma solução para fazer a prorrogação dos nossos custeios e também os investimentos que o produtor rural tem, porque haja vista com o custo de produção que temos e o preço da cebola hoje, eu diria que praticamente 100% dos produtores não conseguem pagar, não vão conseguir pagar os seus compromissos em dia nesse ano”, afirmou. Jelson explicou mais detalhes da situação do setor em entrevista no programa Ponto de Encontro. Ouça na íntegra e entenda:

 

Segundo Gesser, estima-se um prejuízo entre R$ 400 milhões e R$ 550 milhões na safra catarinense. “Isso é um patamar extremamente significativo, a gente está falando aí de um número perto de meio bilhão de reais, que é um valor que deixará de entrar nas propriedades e deixará de girar a economia. Diante disso, os produtores, nós como associação, estamos buscando ajuda governamental. Não é para menos, é uma crise sem precedentes”, afirmou. O produtor rural ainda explicou como funciona a produção da cebola após a colheita. “99% dos produtores vendem a sua cebola, vamos dizer, da lavoura ou dos galpões, que estão estocadas, para as serialistas. As serialistas são empresas que fazem esse beneficiamento, que fazem essa classificação”, disse, acrescentando que, após isso, a cebola é encaminhada para os supermercados. “O produtor terceiriza esse beneficiamento, essa comercialização para empresas que suprem o mercado nacional”, reforçou.

Até a última semana, ao menos cinco cidades catarinenses tinham decretado situação emergência por causa do preço da cebola. A medida visa facilitar o acesso dos produtores a linhas de crédito, além de permitir a renegociação de dívidas. Gesser ainda destacou um ponto importante que muitas pessoas têm dúvidas: se, por conta da crise, os produtores estão descartando cebolas. “O produtor não joga cebola fora. Essa cebola está sendo descartada pelas empresas que fazem a classificação da região e, como o mercado hoje está muito exigente, claro que ali no meio daquele monte de pilha de cebola, às vezes a gente encontra cebola boa muitas das vezes”, comentou. “Diante disso, é sempre bom frisar e esclarecer que, naquela pilha de cebola, existe uma cebola que talvez a gente possa estar utilizando para consumo, mas, para o mercado final, ela não é apta, por isso que ela é jogada fora”, disse sobre vídeos que estão circulando nas redes sociais sobre descartes de cebolas.