O uso de rótulos em crianças, até mesmo aqueles considerados positivos, pode afetar o desenvolvimento e a autoestima. Para a psicóloga infantojuvenil e neuropsicóloga Iara Mastine, muitas crianças acabam se escondendo atrás desses rótulos, que são colocados pelos adultos. Adjetivos como “boazinha” ou “preguiçoso” são alguns dos rótulos mais comuns. Conforme Iara, é preciso trocar o “ser” pelo “ter”. “Será que você é preguiçoso ou você está com preguiça para fazer a tarefa? Mas para jogar o futebol você não tem essa preguiça, você tem a disposição. Então, é muito mais importante a gente não trabalhar com rótulos, rotulando a criança, e observar as ações em si”, disse.

De acordo com a neuropsicóloga, quando se olha a ação da criança, o adulto reforça o que espera dela. “Por exemplo, quando a criança vem, ela dá o seu brinquedo, muitas vezes a gente acha que a criança é boazinha, é aquela criança perfeita, e não, pode ser que ela esteja negligenciando muito as suas vontades”, comentou. “A gente acaba trazendo esse descuido do que ela deve fazer em si para proteger todas as emoções, todos os sentimentos”, acrescentou. Dessa forma, segundo a especialista, é importante reconhecer as emoções e trabalhar isso desde cedo com as crianças. “Não existe uma emoção positiva ou negativa, existem emoções agradáveis e desagradáveis, mas todas têm as suas funções”, salientou.

Iara pontuou que os adultos precisam ser o espelho para as crianças, no caso os pais devem ter esse papel. “O que a gente faz como pais, como adultos responsáveis, impacta 80%, e o que a gente fala, 20%. Então, todos os pais devem se olhar para o exemplo. Será que eu falo bom dia, boa tarde para as pessoas na rua? Eu cumprimento, eu olho para as minhas fraquezas? Eu reconheço que eu errei, eu peço desculpa, eu pratico valores importantes para essa família? Esse é o primeiro passo, olhando para si, porque o seu exemplo, a sua forma de agir, vai contribuir muita para a formação da personalidade da criança”, afirmou. Conforme a especialista, todas as pessoas são seres biopsicossociais. “O exemplo dos pais é o que mais formata, o que mais impacta mesmo nessa formação infantil”, reforçou. A psicóloga participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e falou mais do assunto. Entenda:

 

Recentemente, a neuropsicóloga lançou seu livro infantil “O Rabisco”. “Ele conta a história de um rabisco. Esse rabisco aparecia em todos os desenhos do menino, mas ele não virava nada. Enquanto os outros traços viravam lindas flores, viravam nuvens com cores, ele ficava sempre ali como rabisco, se sentindo invisível e que atrapalhava um desenho incrível”, detalhou Iara. Conforme a autora, o rabisco entende o porquê de existir. “Quando ele compreendeu que a presença dele era fundamental, tudo fez sentido para ele, e ele se sentiu muito especial e importante. Então, essa história traz bem isso, o acolher o que não está pronto, um rabisco é um rabisco por si só, já se pode se tornar inteiro. É a importância dos momentos de pausa para a criação, porque hoje a gente está no mundo que vem tudo pronto”, comentou. Saiba mais sobre o livro aqui.