Além de causar desconforto e cansaço na maioria das pessoas, as altas temperaturas também podem afetar a saúde mental. Isso porque o calor é um fator que soma junto com o estresse. Para o neuropsiquiatra, neurocientista e especialista em saúde mental, doutor Mário Luiz Furlanetto Junior, o calor aumenta a temperatura do corpo, o metabolismo e, consequentemente, exige mais do organismo. “Para quem está na atividade cerebral, trabalhando com pressão, é uma pressãozinha que, às vezes, vem para descompensar, sabe? E isso também é individual, tem gente que tem mais sensibilidade ao calor, prefere o frio, e tem gente que prefere mais o calor, mas fisiologicamente é a questão calórica e energética, que o cérebro trabalha um pouco mais do que o normal”, explica.

Noites mal dormidas durante dias quentes também são um fator para a saúde mental. “É o momento que a gente produz neurotransmissor, os hormônios cerebrais, e o calor atrapalha na insônia, então geralmente a pessoa está um pouco mais irritada na insônia, principalmente na insônia primária, que é a dificuldade de começar a dormir, e se a pessoa já está ansiosa para dormir, o calor é um agravante que pesa um pouco mais nesse horário. Atrapalha, porque queira ou não, até de noite o metabolismo continua um pouquinho mais aumentado por causa do calor”, esclarece o doutor. O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista no programa Ponto de Encontro com o especialista Mário. Ouça:

 

Outro fator ligado à saúde mental e o calor é a desidratação. Conforme o neurocientista, para trabalhar, o cérebro necessita de muita hidratação e de glicose, ou seja, a desidratação e até o jejum prolongado afetam a saúde. “Se a gente entra em um momento de desidratação, assim como outras faltas de nutrientes, muda o metabolismo cerebral e, quando muda o metabolismo cerebral, alguns processamentos começam a ficar mais lentos”, reforça Mário. O especialista acrescenta ainda que, nessas situações, além da lentidão, a atenção também fica comprometida durante a desidratação e o jejum prolongado. “A gente começa a pensar mais devagar, aí a gente começa a ficar mais introspectivo. Se a gente observar quem faz atividade física muito longa, por exemplo, corrida, joga muito no futebol, no final, o raciocínio está diferente do que o raciocínio do começo. É uma coisa fisiológica que dá para a gente observar no dia a dia”, comenta.

Se a pessoa já possui algum tipo de transtorno, o estresse relacionado ao calor pode a afetar. “O estresse está cheio de fatores que já está exigindo do cérebro bastante execução, bastante trabalho, e aí o calor vai ser mais um fator para o cérebro dar conta, porque vai exigir gasto energético, então o maestro do cérebro tem que ter essa preocupação de manutenção, de sobrevivência de energia cerebral, que a hidratação está envolvida. Então as ansiedades, a questão de pressão tipo burnout, depressão, essas coisas, o calor, a desidratação, vai afetar mais esses transtornos”, salienta Mário. “Agora, transtornos mais específicos, como esquizofrenia, psicose, não tem tanto, pode até afetar, mas não diretamente”, acrescenta.

Irritabilidade ou cansaço extremo são sinais de desregulação emocional. Segundo o neuropsiquiatra, a pessoa precisa identificar se é por conta do calor ou não. “O momento de desregulação emocional, seja por crise de ansiedade, de irritabilidade, de qualquer momento, o primeiro passo é parar, identificar. O segundo passo é usar uma habilidade para regular. Então, nesse caso do calor, a habilidade, o segundo passo, seria se refrescar, tomar água gelada, tomar um ar, ligar o ar condicionado, ficar parado, quietinho. Às vezes, só de parar o que você está fazendo e ficar em uma sala gelada já é uma regulação emocional, já é um autocuidado. São coisas simples e sutis, mas são tecnicamente com objetivo”, pontua o doutor.

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