A gagueira é um distúrbio do neurodesenvolvimento. De acordo com Astrid Muhle Moreira Ferreira, fonoaudióloga e doutora em Linguística Aplicada, há o senso comum de que a gagueira é ocasionada pela não fluência. Porém, a gagueira se trata de um transtorno. “Ela é realmente do neurodesenvolvimento, não é uma questão emocional”, salientou. No entanto, a especialista explicou que a condição pode ter o fator emocional ligado, mas que não é a sua principal causa. Para a especialista, em situações em que a carga cognitiva é maior, como ao abordar um tema difícil, falar com alguém com quem se tem pouca afinidade ou em momentos de fragilidade emocional, o corpo pode reagir de forma mais intensa. Esses fatores podem impactar a gagueira.
Segundo a fonoaudióloga, existem vários distúrbios da fala, como transtorno motor, com dificuldade da coordenação de gestos articulatórios, e a dificuldade de se falar alguns fonemas, observados principalmente na primeira infância. A doutora Astrid esclareceu que, no caso da gagueira, há uma dessincronia entre o controle motor da fala e a informação auditiva. “Não é que ela pensa mais rápido do que ela fala, porque todos nós fazemos isso. É que ela não tem uma sincronia entre os próximos sons que ela precisaria falar e o ato motor, a programação motora desse ato. Aí tem um adiantamento do gesto motor e fica ali parado naquele gesto, ou volta para o gesto, a sílaba que já foi falada, ou, às vezes, a monossílaba, como ‘eu’, ‘me’, para até conseguir programar o próximo gesto motor”, explicou.
Astrid comentou que a condição gera muito estresse para a pessoa. “Imagina a pessoa não conseguir fazer algo que uma criança de três anos conseguiria fazer? Ela se vê não conseguindo ter um controle da própria boca, controle da própria laringe, às vezes são as pregas vocais até, que a gente chama de cordas vocais, que não estão obedecendo, que às vezes se contraem e se fixam em um movimento que ela não consegue continuar ali a vibração das pregas vocais”, pontuou. “É uma sensação de impotência sobre si mesmo”, acrescentou a fonoaudióloga. A especialista ainda contou que o próprio ato de gaguejar pode ocasionar mais tensão, já que a pessoa tenta fazer algo para isso não acontecer. “Instintivamente, de forma de se auto proteger, a pessoa que gagueja busca recursos que não são os melhores e acabam tensionando ainda mais, criando movimentos de boca associados por tensão”, salientou.
O Dia Internacional de Atenção à Gagueira foi lembrado nessa quarta-feira, 22. O assunto foi abordado em entrevista no programa Ponto de Encontro. Ouça:
A doutora frisou ainda que a gagueira tem causas epigenéticas, ou seja, a associação da carga genética ao ambiente, a forma como se comunica e reage ao ambiente tem papel fundamental. A recomendação é que um tratamento com o fonoaudiólogo seja realizado assim que os sinais de gagueira sejam identificados. “Dentro dos primeiros seis meses do surgimento da gagueira, a probabilidade é maior do que 90% de não ter mais gagueira no resto da sua vida”, afirmou. Segundo a especialista, ainda na infância, a intervenção fará com que as memórias da gagueira não se fixem na criança, já que o cérebro aprende por repetição. “A pessoa que gagueja acaba compensando para não perder o controle. Então, mesmo a criança, muito pequenininha, com dois, três anos, acaba criando estratégias para recuperar a perda desse controle. Então, tensões que ela acaba tendo, palavras que ela para de falar, desvio de olhar, tensão no corpo, não desenvolve tanto quanto poderia a própria linguagem. E aí tem uma retroalimentação em relação a isso. Já os adultos, a gente vai ao longo da vida criando estratégias instintivas, protetivas, para continuar a fala, ou, às vezes, para se proteger do constrangimento do olhar do outro, e todas essas estratégias instintivas só retroalimentam a gagueira”, disse.




































