A frustração pode gerar impactos negativos na saúde mental. O sentimento é o não recebimento de algo desejado, que acaba gerando uma emoção de insatisfação. De acordo com a neuropsicóloga Juliana Casado, a frustação, quando se prorroga por muito tempo, gera um estresse no cérebro, podendo desencadear outros problemas, como ansiedade e depressão. “Os desafios fazem parte da vida. Os desencontros, as frustrações fazem parte da vida. Porém, se toda vez que eu me coloco no mundo, eu encontro uma insatisfação, toda vez que eu tento realizar algo, eu acabo não recebendo, isso faz com que eu tenha uma relação comigo voltada para desvalorização, ou seja, toda vez que eu não recebo algo, eu sinto que eu sou inferior”, comenta.

Se a pessoa se sente inferior, conforme Juliana, a autoconfiança, que é um dos pilares da autoestima, fica fragilizada. “Toda vez que eu vivo o sentimento de insatisfação, eu acho que fracassei. Quando eu acho que fracassei, eu me coloco em um lugar inferior. Se eu me coloco em um lugar inferior, eu vivo uma sensação de nunca estar pronta para o mundo, do mundo ser sempre muito maior, o outro ser sempre melhor do que eu. Aí eu começo em uma constante comparação, e essa comparação vai fazendo com que eu evite fazer escolhas, evite me relacionar, evite correr riscos”, explica a especialista.

Segundo a psicóloga, a frustração eleva as taxas de estresse. No entanto, o cérebro não consegue manter por muito tempo uma taxa alta de estresse. É nesse momento que o corpo humano começa a somatizar. “A gente faz gastrite, sinusite, os cistos, os nódulos, o corpo começa a gritar pedindo ajuda, pedindo uma pausa, pedindo um respiro. Então, o nosso organismo veio para o mundo como o nosso desenho original do ser humano. A gente nasce, sim, pronto para enfrentar os desafios, para ressignificar as coisas, para ter resiliência. Mas a gente não consegue suportar isso por muito tempo”, destaca. O assunto foi abordado em entrevista, ouça na íntegra:

 

A comparação está muito presente no sentimento de frustração. Conforme a especialista, isso é ainda mais reforçado por conta das redes sociais. “A rede social é uma grande vitrine gratuita de comparação. A gente abre a telinha, seja qual for a rede, e a gente vê alguém fazendo alguma coisa e a gente se compara. Será que seria capaz? Ah, eu fui diferente, aquela pessoa fez melhor do que eu, e cada vez que a gente se compara, a gente está tendo uma relação ruim com a gente, porque a gente nunca se compara achando que a gente é melhor do que o outro”, diz. “É bem complicado esse momento que a gente está vivendo porque é muito excesso de tela, a gente consome muito conteúdo, mas sem um olhar crítico de que se aquilo serve, se aquilo realmente é bom, se eu realmente quero aquilo, para que eu quero aquilo, para que aquilo vai agregar algum valor para a minha vida”, complementa.

É por isso que existem alguns cuidados com a autoestima e autoconhecimento que colaboraram em como evitar as frustrações. De acordo com Juliana, a primeira dica é a prática de atividade física. “Seja ela qual for, uma academia, uma bicicleta, em casa, o que for possível para aquela pessoa, aumenta a nossa taxa de dopamina, serotonina, noradrenalina, isso faz com que a gente comece a olhar para a gente em um lugar um pouco mais acolhedor, um pouco mais empático”, esclarece. “O segundo ponto, dentro da história de cada pessoa, é tentar não consumir muito açúcar. O açúcar vicia a gente em pequenos ciclos de prazer e faz com que a gente não vá para o mundo com a nossa potência”, diz. “E, por fim, que eu acho muito importante, atrelado a esses dois pilares, é buscar o autoconhecimento”, reforça.

Para Juliana, o autoconhecimento permite que as pessoas convivam de uma forma diferente com a frustração. “A prevenção da saúde mental na vida adulta é o autoconhecimento, porque a frustração fala de uma história de vida. O que me frustra não te frustra. O que me gera desejo não gera desejo em você. Isso fala de uma história de vida de uma pessoa, e ela precisa voltar e conhecer essa história de vida e entender: por que me frustra quando alguém falta respeito comigo? Por que me frustra quando alguém grita? Ou por que me frustra quando eu coloco toda a minha energia no projeto e não concluo ele na perfeição que eu gostaria? Isso fala da história de vida dessa pessoa”, esclarece a neuropsicóloga.