A formação profissional de Antonia Maria, somado aos anos de experiência na área da saúde mental, permitiram que ela escrevesse a obra “Famílias Adictas: um guia para navegar pelas águas turbulentas da adicção e reencontrar a calma em família”. Em entrevista, a assistente social e terapeuta de família explicou que, no início de sua carreira, tinha uma visão linear em relação à pessoa adicta, ou seja, quem possui alguma dependência química. “Eu imaginava que o adicto era o único responsável pelo problema e, na verdade, ao longo do tempo, quando eu fui amadurecendo, eu percebi que as fichas não se encaixavam. Então, eu sentia a necessidade de aprofundar mais os conhecimentos a respeito da adicção, e foi nesse aprofundamento que eu percebi que, além do adicto, a família também tinha uma responsabilidade, ela tinha uma coparticipação na adicção do seu membro e, então, baseado nessas minhas conjecturas, nesses meus questionamentos, foi que eu senti o desejo de compartilhar essas minhas inquietações”, contou Antonia Maria sobre os motivos para escrever o livro.

Além disso, a especialista falou que a obra é fruto de um trabalho de conclusão de curso de terapia de família. “Depois, passados 30 anos e baseado nas minhas experiências, não somente quanto à assistência social, mas também quanto a terapia de família, eu comecei a reavaliar, a mudar os meus questionamentos, meus conceitos a respeito da adicção”, reforçou. Para Antonia Maria, o dependente químico não é o único responsável pelo próprio sofrimento e o da família. O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista com a autora no programa Ponto de Encontro. Leia na íntegra e saiba mais:

 

Antonia Maria esclareceu que o trabalho de conclusão de curso era mais focado no alcoolismo. “Seguindo uma hipótese de que a família produzia membros alcoolistas, membros adictos, foi que eu comecei a estudar qual era o funcionamento das famílias, e tinha alguns funcionamentos que eram incomuns. O primeiro era não reconhecer o alcoolismo como doença e, sim, como algo que o sujeito usava porque queria, porque era mau caráter, porque não tinha força de vontade. Então, assim, primeiro era esse discurso distorcido. Eles levavam muito para a questão moral, e não pela questão da saúde. O segundo era a exclusão do papel desse membro do sistema familiar. É como que ele fosse banido do sistema familiar, mesmo ele morando dentro do sistema, dentro de casa. Então, o sujeito, quando ele perde o sentimento de pertencimento, ele fica perdido no mundo”, explicou.

A especialista ainda reforçou outras questões que foram observadas na pesquisa. “Também vem o jogo de poder dentro da família. Inicialmente, os casos que vinham mais a mim foram os casos dos homens que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas, principalmente o álcool nesse caso da primeira versão. Então, o que acontece? O que antes era o chefe da casa, o homem era o chefe da casa, ele perdeu o espaço quando ele passou a fazer o uso do álcool, ele perdeu o espaço do chefe da casa, às vezes sendo adotado ou substituído, ou pelo filho mais velho, ou até pela própria esposa. Não que eu seja contra que a esposa venha conduzir a questão familiar, mas na época em que eu atendia essas famílias ainda existia uma cultura de quem era o provedor do lar era o homem. Então, baseado nessa cultura, essas famílias se sentiam incomodadas com isso”, comentou. “Nessa época, ele até tentava abster-se do uso do álcool ou de outra substância, mas quando ele voltava para o sistema familiar para tentar ocupar o lugar dele, já não existia mais. Então, o que acontecia? Ele ficava perdido, aí ele voltava a buscar aquela substância que era o que lhe dava lugar, que dava sentido na vida, ainda que seja de forma disfuncional, mas era o que dava lugar a ele no mundo, na família, na sociedade. Então, funções dessa forma, de interação mesmo familiar, muitas vezes pode, ao invés de favorecer para que aquele sujeito venha a se dar conta de que ele está realmente adoecido, acaba mergulhando mais nessa doença”, analisou.

O livro “Famílias Adictas: um guia para navegar pelas águas turbulentas da adicção e reencontrar a calma em família” está em fase de pré-venda e pode ser adquirido através da Internet, como no site da editora Kotter.

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