O Dia Mundial em Memória das Vítimas do Holocausto foi lembrado na última quinta-feira, dia 27 de janeiro. No mesmo dia, em 1945, aconteceu a libertação do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, onde se encontravam milhares de judeus em condições extremas a beira da morte, entre homens, mulheres e crianças. Em 2005, quando a libertação já completava 60 anos, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), promulgou o dia para que, conforme o professor de história Itamar Siebert, as atuais gerações se lembrem do que ocorreu nesta época e para que o passado não se repita.

“Evidentemente a explicação do Holocausto não é fácil. Ela exige a interligação de complexas variáveis de curto, médio e longo prazo”, comenta. Para o especialista, é importante saber que a guerra no século 20 se trata de uma guerra ideológica, além de saber sobre a natureza do Estado. O século 20 é marcado por um Estado que possui uma nova estrutura, que é conhecido como Estado-nação, no qual o nacionalismo possui peso. “Nós teríamos que refletir acerca da natureza, do estado totalitário e ao mesmo tempo de porquê o estado totalitário nazista estabeleceu os judeus como inimigos a serem eliminados”, completa.

Foto: US Holocaust Memorial Museum

O professor explica que até a Primeira Guerra Mundial, os conflitos costumavam ter exércitos que se enfrentavam em campo aberto. No século 20 isso muda, sendo que a Primeira Guerra inaugura este novo momento, onde além da população militar, o alvo prioritário passa a ser as economias dos países adversários e o aspecto da população civil. “Nós temos um novo tipo de Estado, que não é mais um estado imperial como era até o século 19. Lembre-se que a Primeira Guerra Mundial pôs fim ao Império Alemão, ao Império Turco, ao Império Austro-Húngaro, e ao Império Russo”, comenta.

“Então nasce um novo tipo de Estado que é o Estado Nacional, o Estado-nação, onde o nacionalismo passa a ser um ingrediente fundamental. E onde as pessoas comuns, o homem comum, passa a ter poder porque o poder emana do povo, um sistema conhecido como liberalismo. Então os governos não são mais representativos de aristocracias ancestrais. Os governos devem responder a vontade dos nacionais que habitam o território. Portanto, a ideologia se torna muito importante. A guerra do século 20 é uma guerra ideológica”, completa Siebert.

No século 20, três fortes ideologias marcavam todo o sistema internacional e que eram totalmente antagônicas: Liberalismo, marcado pelo livre mercado do Estado de direito e que assegurava liberdades individuais, prometendo prosperidade e bem-estar; Comunismo, que também prometia bem-estar baseado em outros princípios ideológicos, tendo como modelo a União Soviética; e o Nazifascismo, que surge depois do fracasso do Tratado de Versalhes e da crise de 1929, também sendo um estado burocrático totalitário, baseando-se em uma ideologia que propunha a purificação e na superioridade racial, como foi visto na Alemanha, Itália e no Japão.

O professor Itamar Siebert participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e explicou mais sobre a Segunda Guerra Mundial e o que foi o Holocausto. Ouça na íntegra:

 

Sobre entender os motivos que levaram Adolf Hitler ao poder, o professor explica que é necessário entender a situação em que a Alemanha estava após a Primeira Guerra Mundial, com a forte crise econômica. “As crises econômicas tendem a levar as pessoas a não acreditar no futuro (…), quando as crises são muito agudas, as pessoas têm fome, as pessoas passam por períodos de desemprego muito longo e isso gera desespero e as pessoas querem soluções imediatas. Foi isso que levou o Hitler ao poder”, frisa.

Hitler, junto com o partido nazista, chegou ao poder da Alemanha por vias democráticas. Tal fator, conforme o professor, traz o questionamento de que as pessoas vivem em um sistema frágil, que é a democracia, que pode ser destruída desde dentro, principalmente quando ocorrem grandes crises em um país. O regime Nazista é essencialmente estético, onde segundo o especialista, o regime pretender eliminar o mal. Juntamente a isto, a propagação da imagem de Hitler e de seus ideais era forte, já que o nazismo foi o que popularizou o cinema, rádio e televisão.

“Era muito fácil você vender a ideia de que os inimigos eram os financistas, evidentemente, nem todos os financistas na Alemanha eram judeus, mas grande parcela sim, quem mais seriam os inimigos? A grande imprensa, evidentemente, nem todos os grandes proprietários de jornais na Alemanha eram judeus, mas grande parcela sim. Quem mais poderia ser identificado como inimigo? os intelectuais sem raízes? Evidentemente, nem todos os intelectuais alemães eram judeus, mas grande parcela sim. Quem mais poderia ser identificado como inimigo? O agitador e evidentemente nem todos os agitadores, os revolucionários sociais na Alemanha, eram judeus, mas grande parcela sim. Então, os judeus, pela sua grande capacidade cultural, pelo seu grande cosmopolitismo, eles encaixavam perfeitamente bem nessa ideia do inimigo interno”, comenta.

Foto: Getty Images/BBC

O professor também explica sobre a obra “Eichmann em Jerusalém”, da autora Hannah Arendt. Nele, a jornalista do The New York Times cobre o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto, que foi preso na Argentina em 1960. Em sua obra, Hannah formula a tese da banalidade do mal, onde ela descreve o nazismo não como uma monstruosidade de pessoas sem caráter ou de pessoas loucas. Mas sim, a incapacidade de refletir das próprias ações, o conforto da irreflexão.

“Ela descreve esse personagem Eichmann como um grande arquiteto do genocídio, que ele não tinha pessoalmente um histórico antissemita, não era fundamentalmente um antissemita, ele também não era um homem perturbado mentalmente. Pelo contrário, era um homem absolutamente disciplinado, bem educado, culto. Por que ele fez o que fez? Ela considera que ele agiu segundo que acreditava ser o seu dever. Ele era membro de uma burocracia. Ele estava cumprindo ordens superiores e essa era a alegação de todos os nazistas que foram julgados no Tribunal de Nuremberg”, explica.

Itamar Siebert esclarece que é por isso que o Dia Mundial das Vitimas do Holocausto é lembrado todos os anos, serve para que as pessoas reflitam sobre a necessidade de se pensar sobre as próprias ações e de que todas as ações possuem consequências éticas. “Então pensar no holocausto é fundamentalmente pensar em nós mesmos e e em nossas ações. E devem considerar as consequências. Nós temos uma liberdade, mas liberdade exige muita responsabilidade”, afirma.

Auschwitz-Birkenau

No complexo, conhecido como Indústria da Morte, milhares de judeus eram submetidos ao trabalho escravo, além do recurso do gás, tortura, fome e maus tratos. Cerca de 90% eram judeus, mas também haviam prisioneiros ciganos, homossexuais, prisioneiros políticos polacos e prisioneiros de guerra. Ao chegarem ao campo, o grupo era dividido entre quem poderia trabalhar e quem deveria ser morto imediatamente ou serem mortos em experimentos médicos. Em menos de quatro anos, a Alemanha nazista matou, no mínimo, 1,1 milhão de pessoas em Auschwitz. Estima-se que ao menos 6 milhões de judeus foram mortos durante o Holocausto. “ARBEIT MACHT FREI”, que significa “o trabalho liberta”, encontrava-se no portão no campo de Auschwitz, o que segundo o professor, era o contrário, já que muitos morreram de tanto trabalhar.

FOTO: JANEK SKARZYNSKI / AFP