Ao fim das 24 horas de live, sorrisos marcavam os rostos cansados dos artistas e da equipe técnica. Do outro lado da câmera, em frente às telas e monitores, 75 espectadores prestigiavam o último momento do espetáculo. Até ali, foram 13 apresentações, trazendo os delírios do Artista da Fome a um público fiel e engajado que registrou uma média superior a 100 visualizações para cada entrada. Tudo começou em 16 de março, quando o Cirquinho do Revirado iniciou um grandioso projeto. Experimentando suas versões da obra de Franz Kafka, Reveraldo Joaquim e Yonara Marques iniciaram um jejum de 40 dias.
Apenas Reveraldo chegou até o fim, no sábado (27). O último dia de fome foi celebrado com arte. A partir das 21 horas de sexta-feira (26), a cada 120 minutos, o Cirquinho, com o auxílio técnico e artístico do Grupo Cirandela, compartilhou um momento de delírio do Artista, misturando e conectando diferentes apresentações do Grupo em uma única cena. Nos bastidores, as duas horas de intervalo foram marcadas pela corrida contra o tempo para a caracterização dos atores e organização das cenas e cenários.
O tamanho engajamento e a fidelidade do público foram aspectos comemorados pelo grupo, diante deste novo universo virtual. “Acreditamos que neste momento de pandemia, em que as artes construídas nas suas diversas áreas foram interferidas, tentar inovar se torna o maior desafio. Implantar a característica do Grupo nas ações on-line é algo que ainda permeia nosso imaginário. Este formato possibilitou perceber a potência e comprometimento de quem assistiu a live. Fomos seguidos por centenas de pessoas que acreditaram, ou que ficaram curiosas com o que estávamos produzindo. Esperamos que nossa ação tenha inspirado muita gente, e que esta inspiração traga novos momentos de arte para a comunidade”, enfatizou Reveraldo.
Os 40 dias sem comer foram recheados de críticas, elogios e até debates acalorados nas redes sociais. A provocação vivida e compartilhada pelos artistas nos perfis do Cirquinho do Revirado foi mais do que ficar sem comer, foi alimentar e trazer à tona o desejo e a necessidade de arte dentro de cada leitor dos materiais e expectador da live de 24 horas.
Toda essa trajetória, conforme o artista jejuador, só foi possível pela dedicação dos integrantes do projeto. “Agradecemos a toda a equipe envolvida, principalmente a Yonara Marques que esteve construindo este sonho e o realizando também. Ao Luan Marques Joaquim, que durante os 40 dias que antecederam a live escreveu o Diário da Fome e colocou o público a par de tudo que acontecia. Ao Fábio Murillo, que participou de forma profissional do processo. Ao Bruno Andrade e Priscila Scahukosk, do Grupo Cirandela, que foram uma grande parceria. Lembro também da Marcella Marques, nossa amada filha, que está a cada momento crescendo com os pais que mostram que a arte pode transformar multidões. Por fim, nosso agradecimento principal vai para todos, todas e todes que nos seguiram nesta maratona. Isso já é história, e ninguém mais pode mudar”, destacou.
A fome do artista ainda não cessou por completo. Em cerca de 30 dias um documentário será apresentado ao público, com materiais ainda não mostrados, às 13 apresentações, registros de críticas e elogios feitos na internet e até o depoimento de pessoas que se sentiram tocadas pela experimentação.
O projeto Artista da Fome
Ao idealizar o projeto, logo o grupo percebeu que seria o maior desafio do Cirquinho em uma iniciativa artística, e ao mesmo tempo contemplaria toda a forma de construção poética, lúdica e cultural que o grupo trabalha. “O experimento artístico que propomos buscou suscitar nas pessoas os mais diversos tipos de reações, impactar ao comunicar este jejum de 40 dias ligado a uma ação artística. Como saber que alguém está jejuando te faz refletir? A minha escolha te irrita? E das pessoas que não tem escolha sobre se alimentar? Nosso objetivo foi atingido e esperamos poder desenvolver outras experiências tão potentes quanto a que acabamos de realizar”, completou Reveraldo.
Toda a trajetória vivida pelo jejuador ainda está disponível no Facebook e no Instagram. Durante os 40 dias a única coisa ingerida pelo artista foi água. Para a segurança, houve orientação médica, com acompanhamento dos batimentos cardíacos e pressão. A intervenção audiovisual “O Artista da Fome” é um projeto de experimentação artística, contemplado e viabilizado pela Lei Emergencial Cultural Aldir Blanc (Lei n.º 14.017/2020), por meio da Fundação Cultural de Criciúma.
Sob direção de Reveraldo, o experimento fez relação com o livro quase homônimo “Um Artista da Fome”, do renomado escritor tcheco Franz Kafka, falecido em 1924. A fome de comida é também uma referência à escassez de arte e da “alimentação artística”, especialmente durante o período de pandemia da Covid-19.
Colaboração: Assessoria de Comunicação









































