Nascido e criado em Urussanga, Brivaldo de Sousa Pereira construiu uma trajetória que se entrelaça à história de vida de muitas pessoas da região. Ao longo de quase cinco décadas dedicadas à medicina, acompanhou gerações, participou de momentos marcantes de inúmeras famílias e deixou sua contribuição na comunidade. “Tirando um período que estudei em outras cidades, estudei em Curitiba, fiquei praticamente 10 anos em Porto Alegre fazendo curso de medicina e pós graduação, nunca deixei de ser cidadão urussanguense. Estava lá passageiro, digamos assim, mas sou de Urussanga desde que nasci”, afirmou o doutor Brivaldo. Pensando em relembrar a sua história de vida e trajetória profissional, o doutor Brivaldo participou de uma entrevista especial no programa Ponto de Encontro, onde contou sobre vários fatos marcantes. Ouça na íntegra:
Antes de se tornar uma referência na ginecologia e obstetrícia, Brivaldo viveu parte da infância na comunidade de Rio Deserto, onde morou dos três aos oito anos. A mudança ocorreu quando seu pai começou a trabalhar em um escritório na localidade. Foi nesse período que ele começou a construir algumas das lembranças mais antigas da infância, entre os primeiros anos escolares, as brincadeiras e a convivência com a comunidade. “Eu via criancinhas que iam para a escola, maiores que eu, um pouquinho, e eu comecei a insistir que queria estudar também. Minha mãe solicitou a professora lá se eu poderia estudar junto e tal. Ela disse que ia ver o caso”, relembrou. A professora consultou a inspetora escolar, que autorizou Brivaldo a participar das aulas, desde que ficasse ao fundo da classe e não fizesse a matrícula, já que não era possível.
Brivaldo acompanhou as aulas assim até a metade do ano. “A professora achou que eu tinha condições de acompanhá-la. Ela falou para a minha mãe ‘ele acompanha igual aos outros’. Eu sei que a professora falou com a inspetora, ela aceitou então que fizesse a minha matrícula”, contou o médico. Desde pequeno, Brivaldo era muito inteligente e o mais avançado da turma, chegando a ser alfabetizado antes do tempo previsto. “Quando eu fui fazer o ginásio, o ginásio me barrou pela pouca idade. Aí tive que fazer o pré-ginasial, um ano, por causa da pouca idade”, falou, destacando que sempre gostou muito de estudar. Após os oito anos de idade, Brivaldo retornou com a família para a região central da cidade. Sua trajetória escolar inclui também passagens pela Escola Barão do Rio Branco, Colégio Rainha do Mundo, Colégio Marista, Colégio Santa Maria, em Curitiba, e, já na graduação, na Faculdade Católica de Medicina e especialização na Santa Casa, no Rio Grande do Sul.
A escolha pela medicina não nasceu de uma imposição familiar. O pai, segundo Brivaldo, nunca determinou qual profissão deveria seguir. Ao contrário, incentivava o filho a encontrar uma atividade que lhe proporcionasse satisfação e autonomia. “Eu achei uma profissão que eu fosse amenizar a dor de alguém me daria prazer em dobro”, disse. No início, Brivaldo cogitou em seguir a área de ciências biológicas. Porém, o urussanguense teve um estalo e decidiu cursar medicina. Durante a faculdade, o doutor ainda não sabia qual especialidade seguir. “Como a faculdade eram seis anos, os dois primeiros anos eram muito teóricos, era anatomia, fisiologia, aquela coisa toda”, recordou. “No terceiro ano, a gente começou a entrar em contato, então, com a prática. Então tinha aula teórica na faculdade e aula prática em hospitais”, completou. “Quando caiu ginecologia e obstetrícia, que eu conheci, foi lá na Santa Casa, também nas aulas práticas, eu via aquele movimento todo, gente querendo neném, um movimento muito grande”, falou.
Segundo Brivaldo, sua formação na faculdade contou com ensinamentos de vários professores renomados. “Eu me inspirei nesses profissionais, a conduta que eles tinham. Aí as outras cadeiras vieram pela frente, fui fazendo, mas já sabendo que eu queria fazer aquilo, convenceu de verdade”, contou. Além dos professores, o contato com a especialidade na Santa Casa foi decisivo. A movimentação da maternidade, os procedimentos cirúrgicos e o acompanhamento das gestantes despertaram o interesse que o acompanharia por toda a carreira. A instituição também lhe proporcionou uma experiência intensa, com atendimento a pacientes de diferentes regiões e condições sociais. Na época, antes da implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), a Santa Casa acolhia principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade, além de receber casos graves encaminhados de outros municípios. “A gente pegava casos, assim, muito interessantes, muito, muito, e de todos os lugares”, afirmou.
A residência em ginecologia e obstetrícia terminou em 31 de dezembro de 1978. Na manhã seguinte, às 7h, Brivaldo já estava em Urussanga para começar a trabalhar. O retorno à cidade natal representava o início de uma trajetória que exigiria dedicação muito além do horário convencional. Nos primeiros anos, além da ginecologia e obstetrícia, Brivaldo também assumiu plantões gerais no hospital. Atendia acidentes de trabalho, ocorrências nas minas e problemas clínicos de diferentes naturezas. “Aquilo ali foi alguns anos que tive que fazer tudo isso, isso foi desgastante realmente”, comentou. “Hoje em dia os plantões são pagos por hora, todo mundo que faz plantão recebe por hora. Naquela época não era remunerado, a gente ganhava o pró-labore, quer dizer, tu recebia por consulta”, explicou. Brivaldo contou que era comum fazer plantões aos fins de semana, no qual a maioria das pessoas iam para praia, não havendo tantos atendimentos. “Tu ficava preso aqui e se tu não atendesse ninguém, tu não ganhava nada”, disse.
Prestes a completar 75 anos, dos quais quase cinco décadas dedicadas à medicina, Brivaldo se tornou parte da história de vida de muitas pessoas da região. Ao longo da carreira, acompanhou mulheres em diferentes momentos, desde as consultas ginecológicas até a gestação e o nascimento dos filhos. Muitos desses vínculos ultrapassaram o consultório e permaneceram ao longo dos anos. Segundo o doutor, há muitos homens da região que possuem o mesmo nome que ele, em sua homenagem. Ao olhar para trás, Brivaldo disse que não consegue calcular quantos bebês ajudou a trazer ao mundo. Foram milhares de atendimentos, incontáveis plantões e histórias que atravessaram gerações. Algumas dessas crianças cresceram, constituíram famílias e retornaram ao consultório com os próprios filhos. Atualmente, Brivaldo atende pela Secretaria de Saúde de Cocal do Sul e possui seu próprio consultório em Urussanga. Casado com Neusa há 41 anos, Brivaldo é pai de Luísa, arquiteta, e Eduardo, que atua no setor financeiro.

Confira a entrevista também em vídeo:




































