Uma tradição trazida pelos imigrantes italianos ainda vive no Sul catarinense, mesmo diante da dificuldade de encontrar novos praticantes. Quem observa de fora e percebe os gritos em dialeto italiano e as batidas na mesa de madeira pode estranhar. Mas esse é o Jogo de Mora, que envolve agilidade e conhecimentos matemáticos. O jogo se resume em tentar adivinhar a soma exata dos dedos expostos pelos jogadores, que mostram, ao mesmo tempo, de um a cinco dedos em uma das mãos. Atualmente morador da região central de Criciúma, Antonio Carrer Facchin é jogador de Mora. Em entrevista, Antonio contou que, nos dias atuais, os italianos praticam um estilo mais calmo do Jogo de Mora, conhecido como punto parola. “Eu convivi muito com o pessoal que joga a mora curtida, é uma mora rápida que, se tu não tiver percepção rápida, tu não pode ser juiz. Como se diz, os dedos na mesa vão e voltam, tu quase não acompanha”, disse Facchin sobre o jogo que aprendeu com a sua família.
Para Facchin, a principal regra ao jogar mora é beber um bom vinho ou uma boa cachaça. “Preparar o espírito e as confusões, que normalmente, antigamente, dava muito. Contavam meus pais que, às vezes, a mesa de três centímetros de grossura, as tábuas pesando lá seus 120 quilos, ela saía a quatro, cinco metros do lugar de tanto bater em cima da mesa”, contou. Segundo Facchin, normalmente sempre jogam duas pessoas ou duas duplas, totalizando quatro jogadores. “É a movimentação dos dedos, cada um faz a sua chamada. Por exemplo, eu chamo dois e tu chama quatro, se eu colocar dois e tu colocar dois, tu leva vantagem. Se eu colocar um e tu três, tu leva vantagem. Quem chamou que leva a vantagem, se fechou a contagem dos dedos. É ali que entra um juiz que tem que ter um olho danado”, explicou.
Os jogadores tentam adivinhar a soma dos dedos falando em dialeto italiano. Segundo Facchin, o jogo pode mudar alguns fatores conforme a região. “Tem um jogo também que é muito jogado em Treviso, Siderópolis e Nova Veneza também, o jogo que é dos bergamascos. Ele é um jogo mais calmo”, disse. “Os códigos são os mesmos, mas os palavreados são diferentes porque cada um tem o seu dialeto”, pontuou. “Tem uma mora também que é cantada, aquela que antes de tu descer a mão na mesa, tem uma canção que é falada”, complementou. O senhor Facchin participou de uma entrevista no programa Ponto de Encontro e explicou mais sobre o jogo de mora. Ouça:
A gritaria também é característica do jogo de mora. Facchin esclareceu que o grito serve como uma forma de respeito ou de deboche com o adversário. “Tem muitas expressões que são usadas exatamente para o deboche, às vezes, ou então para agradecer quando o amigo ganha. Aí é muito relativo da região”, falou. Facchin ainda contou que conheceu o jogo de mora pela primeira vez por volta dos 10 anos de idade. “Eu cheguei para o pai e perguntei por que eles batiam tanto na mesa e faziam a mesa andar. Ele disse assim ‘quem trabalha na roça não tem problema se sai um pouquinho de sangue nos dedos'”, relembrou.
Mesmo sendo um jogo divertido, Facchin destacou que há poucos praticantes na região, a maioria já idosos. “Em Cocal, por exemplo, tinha a família Scarpato, que eram seis irmãos que jogavam, que eram imbatíveis. Eles se conheciam só no olhar”, disse. Há anos Facchin trabalha para que o jogo de mora, assim como outras práticas de antepassados, sejam ensinados para a juventude. Antes da década de 1990, integrantes da família Scarpato ensinaram o jogo de mora para adolescentes de uma escola em Cocal do Sul. “Depois, a medida que o pessoal não é incentivado, eles acabam desistindo, acabam saindo fora, outros por vergonha, outros por não se darem muito bem”, comentou. “Tem que ter uma ala só para reviver ou recuperar os jogos antigos. Precisamos disso, mas está difícil porque tu não encontra pessoas para esse fim”, analisou, destacando que há um período de seis meses até um jogador aprender todas as “malandragens” do jogo.





































