Embora o conflito entre os Estados Unidos e o Irã tenha se intensificado nas últimas semanas, a relação entre os dois países é estudada há muitos anos. De acordo com o doutor Fauzi Hassan Choukr, especialista em Direito Internacional, o atual regime iraniano é inaugurado em 1979 com a revolução islâmica, uma reação a certa intromissão estadunidense na política iraniana. “Nos anos 50, os Estados Unidos apoiaram um golpe de estado que foi dado, passado contra o então primeiro ministro e que levou a realeza iraniana ao poder e assim permaneceu de meados dos anos 50 até 1979 com o governo do Xá Mohammad Reza Pahlavi. Aquela comunhão foi uma comunhão política e foi uma comunhão militar tecnológica”, contou. “O programa iraniano de enriquecimento de urânio começa com os Estados Unidos. Foram os Estados Unidos que levaram essa tecnologia para o Irã nos anos 50 após o golpe de estado”, acrescentou o doutor.
Conforme o especialista, naquele contexto, os Estados Unidos patrocinaram um programa nuclear iraniano, chamado de “Paz Atômica”. “Assim, os Estados Unidos colocaram um pé naquela região do mundo de uma maneira mais incisiva e, entre outras finalidades, existia a contenção da expansão do domínio da antiga União Soviética na região”, disse. Fauzi destacou que o governo de Xá Mohammad Reza Pahlavi foi extremante criticado, até violento em muitos casos, o que acabou culminando na revolução teocrática islâmica em 1979, levar o poder aos aiatolás. “É importante destacar também, nesse contexto, que a atual guarda revolucionária também é fruto na sua origem desta comunhão política entre os Estados Unidos e o Irã nos anos 50. Então nós estamos falando de uma relação política muito longa”, reforçou. O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista no programa Ponto de Encontro. Ouça na íntegra:
O doutor Fauzi ainda falou que a relação dos dois países ainda possui um fato particular que é considerado como umas das grandes humilhações miliares para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, atrás da Guerra do Vietnã. “Em 1979, a embaixada estadunidense no Irã foi invadida e ficou sob domínio dos invasores por mais de um ano e meio, 444 dias. Os Estados Unidos, em 1979 era o presidente Jimmy Carter, tentaram fazer o resgate dos reféns e essa operação foi um fracasso homérico porque os aparatos de guerra, os helicópteros que haviam sido mandados para o resgate, caem antes de poderem chegar minimamente a atuar. Esse fato, em 1979, desgasta tanto o então presidente Jimmy Carter, que ele perde as eleições para Ronald Reagan”, pontuou. “Desde então, nenhum presidente americano buscou invadir ou conflitar da maneira como está acontecendo agora com o Irã, até o atual presidente dos Estados Unidos fazer o que está fazendo”, complementou, frisando que todo esse contexto histórico acaba sendo esquecido pelas pessoas ao analisarem o atual conflito entre os dois países. “É mostrado algo agora como se fosse uma coisa inédita e não é. Essa história é longa, ela é engasgada no militarismo norte-americano pela humilhação sofrida e os Estados Unidos nunca aceitaram exatamente a perda da influência num lugar estrategicamente tão importante como é o Irã”, ressaltou.
Com a intensificação do conflito nos últimos dias, a maioria das pessoas se questiona se isso poderia ter a participação de mais outros países. Para o doutor Fauzi, que também é promotor de justiça aposentado, a dinâmica dessa guerra tem oscilado bastante desde o início. “Em primeiro lugar, não se imaginava uma capacidade de contenção e reação da maneira como o Irã está fazendo”, afirmou, acrescentando que, em primeiro momento, imaginava-se uma ampliação geográfica. “Porém, algumas situações foram já de imediato mudando essa percepção. Que situações foram essas? Primeiro, a Europa não aderiu à prática militar dos Estados Unidos e de Israel, como se poderia inicialmente prever”, pontuou. Embora não tenha ocorrido de forma imediata, países como a Espanha, Itália e a Grã-Bretanha se posicionaram contrários ao conflito. Outros países como a Rússia e a China também não aderiram de forma explícita ao que está acontecendo. “A Rússia porque tem a sua própria guerra contra a Ucrânia. A China porque faz parte das suas relações internacionais uma movimentação não militarizada. O que não significa, evidentemente, que esses países não possam, de uma maneira indireta, dar algum suporte de inteligência, de informação, sobretudo ao Irã”, falou, abordando que, no entanto, uma expansão comercial é inevitável.
Para Fauzi, a duração desse conflito realmente é uma questão em aberto. “Parte hoje, claramente, da estratégica iraniana deixar o conflito se estender porque, quanto mais o conflito se estender, piores serão as consequências políticas, sobretudo para os Estados Unidos”, analisou. “Em pesquisa recente e até onde se pode dizer pesquisas confiáveis, a população majoritariamente repudia a guerra”, observou. “Não há um interveniente internacional ou como se diz, ator internacional, que possa ocupar um papel de mediador aceito por todas as partes. Isso significa dizer que a curtíssimo prazo nós manteremos este conflito ainda em curso”, falou.




































