Temas como imprevisibilidade do comportamento humano, bullying e masculinidade tóxica estão presentes na minissérie “Adolescência”, da Netflix. Para o psicólogo Alex Cambruzzi, a minissérie possui muitas camadas de reflexão, principalmente por se tratar de uma faixa de desenvolvimento humano que considera intrigante: a adolescência. “A interpretação que eu fiz é como se a série novamente tirasse uma cortina de algo que estava lá escondido nos quartos, que estava em silêncio, e que traz à tona aquela imagem de um adolescente que pode provocar um mal, que pode fazer algo muito intempestivo e prejudicar toda uma sociedade. Eu acho que ela trouxe esse enfoque novamente para um período em que nós precisamos de um olhar bastante cuidadoso”, fala.
Dividida em quatro episódios, a minissérie britânica acompanha a história de Jamie, um adolescente de 13 anos de idade que é acusado de assassinar uma colega de escola. Nos episódios, é possível acompanhar a família de Jamie. “É uma família comum, funcional, sem nenhum registro até então de violência, de carência, de nada ali que pudesse de repente indicar um cenário que iria acabar resultando em tamanha violência”, conta Alex. “Acho que aí é uma primeira reflexão que a gente tem, assim, essa chamada de imprevisibilidade do comportamento humano. A partir do momento que a série vai se revelando, ela vai mostrando para a gente que, na verdade, essa família não tinha conseguido detectar sinais antecipados de que esse adolescente estava dentro de um fluxo de adoecimento”, acrescenta.
O psicólogo pontua que diversos sinais são trabalhados ao longo dos quatro episódios e que indicam características de Jamie. “Esse adolescente vive bastante um isolamento, ele passa muito tempo no quarto e ele passa muito tempo imerso em redes sociais. E aí nessas redes sociais, a gente acaba tendo dados hoje bem significativos sinalizando que o cyberbullying é uma prática muito frequente dentro dessa faixa etária. Então esse adolescente passa ali por situação de cyberbullying, de pressão social e que esses pais estão totalmente desinformados. Eles entendem que o filho está seguro por estar em casa. Se está em casa, está no computador, está produzindo alguma coisa, ele supostamente está seguro. E, na verdade, nós temos um caldeirão ali de acontecimentos que vão colocando esse adolescente em uma pressão interna”, afirma.
Conforme Alex, essa pressão interna, na minissérie, se transforma em vingança. “Um retorno contra aqueles algozes, aquelas pessoas que estão ali praticando essa pressão”, reforça. “Outro ponto que eu acho bem interessante é que nós vemos uma faixa etária onde não foi dado nenhum tipo de suporte emocional. Os cuidadores garantiram ali comida, um lar, que já é algo muito bom, muito importante de existir, mas não dão atenção à base emocional desse adolescente. Esse adolescente, inclusive, vai encontrar uma psicóloga pela primeira vez somente quando ele está já em acusação”, avalia Cambruzzi. O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista ao programa Ponto de Encontro. Entenda mais:
Outro fator importante que é mostrado na minissérie é a forma como a escola é representada. No segundo episódio, é possível perceber que os profissionais da escola perderam a esperança em relação a todos os alunos. “A gente vê e tem a sensação de que aquelas pessoas que são talvez grandes representantes para auxílio nesse momento de um suporte, de um bom encaminhamento, elas também estão desacreditadas, elas também estão largando mão, elas não estão tão inseridas dentro daquele contexto. O que não me parece ser muito a realidade daqui da região onde a gente vive”, salienta Alex.
Uma reflexão que a minissérie provoca, segundo o psicólogo, é a falta de empatia entre os adolescentes. “Talvez esses pais (da minissérie) não tenham exercido tanto uma demonstração de preocupação para com esse adolescente, de uma conexão emocional com esse adolescente, de um desenvolvimento de empatia. Tenho focado muito isso atualmente nos meus debates, nas minhas discussões e entrevistas, que aparentemente nós estamos com uma geração com déficit do treino empático. Esse treino empático de conseguir perceber no outro alguém que tem valor, que tem sentimentos e que tem um lugar de merecimento também na terra. E eu acho que nós estamos, infelizmente, falhando sumariamente nesse sentido”, alerta.






































