Uma vida agitada, com receio de ser assaltado ou agredido na rua, até na própria casa, e longas horas no trânsito até chegar ao trabalho. Essa era a vida de Vinicius Dias Fonseca e de sua família em Campo Grande, um bairro no Rio de Janeiro com mais de 367 mil pessoas. Tudo isso mudou para uma vida tranquila em uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, em Urussanga, Sul catarinense. Há três anos, Vinicius recebia uma proposta de emprego na Ceusa Revestimentos através do Linkedin, uma plataforma com foco no mundo profissional. Na época, Vinicius visitou Urussanga apenas para uma entrevista de emprego, só com a roupa do corpo, mas acabou ficando na cidade e nunca mais retornou para o Rio de Janeiro.

Vinicius tem 46 anos e é engenheiro de produção. Quando morava no estado fluminense trabalhava em uma empresa automobilística. A sua esposa, a Fernanda, também é engenheira de produção e eles se formaram juntos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Antes de conhecer Urussanga, Vinicius e sua esposa estavam pensando em se mudar para o Canadá. “Estava só aguardando a documentação quando surgiu a possibilidade de vir aqui conhecer Santa Catarina, que até então eu não conhecia”, comentou.

A diferença de estados foi notada por Vinicius no momento em que pousou no aeroporto. Assim que chegou na cidade, Vinicius conta que sentiu amor à primeira vista por Urussanga. “Fui contratado e desde o dia que fui contratado não voltei mais”, ressalta o engenheiro. Nos primeiros dias, quando Vinicius estava hospedado em um hotel da cidade, perguntou na recepção se era seguro andar à noite pelas ruas urussanguenses. “Eu tomei um susto, um choque de realidade muito grande”, relembra. Para Vinicius, que teve uma vida toda no Rio de Janeiro, era algo diferente poder andar tranquilo em uma cidade sem o receio de ser assaltado ou sofrer algum tipo de violência.

Atualmente, o engenheiro trabalha na IBRAP. O programa Ponto de Encontro abordou mais sobre a história de vida de Vinicius, as mudanças do Rio de Janeiro para Urussanga e a nova vida construída no Sul catarinense em entrevista. Ouça na íntegra:

Parte 01

 

Parte 02

 

Vinicius conta que uma das coisas que mais chamaram sua atenção ao andar em Urussanga pela primeira vez foi o fato de os bancos na praça Anita Garibaldi não serem pregados no chão. “Ninguém rouba isso, ninguém furta, ninguém leva embora. As placas ali com os nomes do pessoal que veio aqui, da história de vocês, muita placa comemorativa, acho isso muito legal”, comenta. “Eu acho que o Rio de Janeiro, e as outras cidades grandes, eu acho que se perderam por dois grandes motivos, isso na minha concepção. A primeira foi por conta de algumas, ou várias, ou seguidas, escolhas políticas que foram feitas ao longo do tempo, que influenciam muito no local, nas tradições e nos valores ali da comunidade. E a outra foi essa perda da sua história”, afirma.

O engenheiro ainda reafirma que não pretende retornar ao Rio de Janeiro. Após alguns meses vivendo no hotel e em uma pousada, Vinicius trouxe a sua esposa e os seus dois filhos, um jovem de 15 anos e uma adolescente de 12, para morar em Urussanga. “Inclusive, eu brinco com os meus filhos, quando eu quero castigá-los ou algo do tipo quando se faz alguma coisa de errado, falo ‘ah, se não fizer eu vou te levar para o Rio de volta'”, afirma. Para o carioca, o problema do Rio de Janeiro envolve a segurança pública, além de uma banalização da violência.

Morando há três anos em Urussanga, Vinicius recebe a visita de muitos familiares e amigos em sua nova casa. A sua expectativa é trazer seus pais para morarem na cidade. O engenheiro conta que quando o seu pai o visita, ele não consegue dormir de janela aberta. “Ele falou para mim: ‘Vinicius, me desculpa, mas eu não consigo dormir com a janela aberta. Lá no Rio, eu tenho medo de acordar e ter alguém me olhando na janela, de ter alguma coisa, alguém me render ali na janela, me apontar uma arma, eu não consigo'”, conta Vinicius. A sua irmã mais nova, Vanessa, ainda não o visitou por não acreditar que Urussanga seja tão tranquila assim ao ponto de não ter grades nas janelas e muros altos nas casas.

De acordo com o engenheiro, enquanto morou no Rio de Janeiro, foi assaltado diversas vezes, teve sua casa arrombada e levou tiro de bala perdida em seu carro, que inclusive tem a bala guardada como recordação. “As coisas vão se banalizando com o tempo. Então é normal, por exemplo, em um restaurante você ver uma pessoa sendo assaltada na sua frente, já não choca mais”, afirma. Para Vinicius, além da baixa violência, Urussanga, assim como Santa Catarina, destacam-se pela receptividade, educação e respeito com a cultura, história e com as pessoas. “Mantenham essa tradição, mantenham esses festejos, esse respeito com os nonos, pela cidade, porque depois que a gente começa a perder isso, é um caminho sem volta”, acrescenta.