Ser filha de pais surdos fez parte da rotina de Liliane Ghedin desde o nascimento. Hoje, aos 17 anos, a jovem de Criciúma usa a própria história para conscientizar sobre inclusão, acessibilidade e a importância da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Liliane é o que se chama de CODA (Child of Deaf Adults), termo em inglês utilizado para definir filhos ouvintes de pais surdos. “Quando eu nasci, eu morei um ano com a minha avó, porque naquela época os médicos falavam que a criança, que era filha de pais surdos, não podia aprender Libras primeiro, porque daí falavam que eu ia ficar surda também, não ia conseguir me comunicar. O que hoje já é falado que é um mito isso, não é verdade”, disse Liliane. Após um ano vivendo com a avó, Liliane aprendeu a Libras com o seu pai e sua mãe, já sendo fluente para se comunicar com eles aos quatro anos de idade.

Dessa forma, Liliane é a intérprete de Libras dos próprios pais. Desde pequena, a criciumense acompanha seu pai e a mãe em vários locais, como bancos, hospitais e lojas, que não possuem pessoas fluentes em Libras. Além de Liliane, os pais, Éder e Rosimari, possuem outros dois filhos mais novos, que também estão aprendendo a Libras. “Eu não me recordo se eu tive um choque, um baque, assim, se eu tive um conhecimento que meus pais eram surdos e meus amigos, minha família, eram ouvintes. Porque, desde que eu me conheço por gente, eu falo em Libras, eu vou passando tudo para eles. Então eu não tive esse choque, para mim era uma coisa normal da minha vida”, disse Liliane, acrescentando que, na época da escola, teve dificuldades porque alguns colegas faziam piadas sobre a surdez dos pais.

Tanto Éder como Rosimari são surdos desde o nascimento. Rosimari consegue fazer leitura labial, porém Éder não. Em entrevista, o pai de Liliane contou mais sobre como foi descobrir a surdez quando era criança. “Meu pai e minha mãe não sabiam que eu era surdo. Eu brincava normal, gritava, batia palma e não escutava. Daí eles perceberam, eu tinha quatro anos. Eu fui junto com os meus pais lá no médico e descobriram que eu era surdo. O meu pai e minha mãe não sabiam, ficaram chocados”, comunicou Éder. “Eu entrei na escola, todos eram ouvintes, eu era o único surdo, eu ficava quietinho, todo mundo conversando, brincando e eu lá quietinha, sozinho”, relembrou, acrescentando que, na época, não havia intérprete. Foi aí que decidiu avisar aos pais que não gostava de ir para a escola porque era o único surdo. “Meus pais ficaram pensando ‘aonde que vamos encontrar uma escola para surdos?’ E encontraram lá no Colegião. Tinha vários surdos, daí consegui me comunicar, sinalizar, fiquei muito feliz”, recordou.

Para Liliane, ser CODA fez com que ela amadurecesse muito rápido. “Quando eu era pequeninho, eu estava lá com 10 anos resolvendo coisas de banco, financiamento, em hospital, com medicamentos. Eu ajudava eles sempre, ajudava em cartório, assinar documento. Tudo era eu que sinalizava e explicava. Então, sim, foi uma responsabilidade muito grande. Mas eu levo isso como se fosse uma história para a pessoa levar como uma inspiração e não se abalar por pouca coisa”, disse Liliane. Às vezes, alguns assuntos eram tão complexos que Liliane precisava recorrer à avó, que explicava para ela de forma mais fácil para Liliane interpretar para os pais. Liliane e seu pai, Éder, participaram de uma entrevista especial no programa “Nas Entrelinhas do Rádio” e destacam mais sobre o assunto. Confira na íntegra:

 

Liliane destacou que, para ela, a pessoa surda não precisa usar um implante ou tentar oralizar para se comunicar. “Na minha opinião, a pessoa ouvinte, a gente precisa aprender a Libras, pelo menos o básico da comunicação, para conseguir se comunicar, principalmente pessoas que trabalham em atendimento ao público, hospital e banco”, frisou. “Muita gente acha que eles que têm que se incluir, eles que têm que se virar nos trinta, digamos assim, para conseguir se comunicar com as pessoas. O que eu acho que é errado, que a gente, pessoas ouvintes, deveria aprender pelo menos o básico para conseguir se comunicar. Acredito que falta isso, falta interesse, apesar de a gente lutar muito, falta chegar um pouco mais nessas pessoas”, pontuou Liliane.

Confira a entrevista também em vídeo, com interpretação em Libras:

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