Prestes a completar 99 anos de idade, dona Rosa Sandrini mantém viva lembranças e histórias que o tempo não consegue apagar. Rosa nasceu na comunidade de Pindotiba, em Orleans, ainda quando a região era conhecida como Palmeiras. Há 72 anos, Rosa vive em Urussanga. Antes disso, também viveu em Vila Nova, em Imbituba, onde começou a frequentar a escola. Sua infância foi distante das facilidades de hoje. Em casa, a noite era iluminada pela lamparina de querosene, e o fogão a lenha mantinha o calor que reunia a família. Quando escurecia, era hora de encerrar as tarefas e descansar. “Tinha só luz de querosene. Quando estava anoitecendo, tinha que se trocar, se mudar, dormir e ponto. Não tinha luz de noite, nada”, relembrou, dizendo que era comum estar pronto para dormir antes das 17h30, quando o dia costumava escurecer.

Dona Rosa se casou aos 21 anos de idade com Antônio Sandrini. Quando se mudaram para Urussanga, o casal já tinha duas filhas pequenas, uma de 3 anos e outra com pouco mais de 2 anos. O casal teve cinco filhas mulheres, todas com nome Maria. “Tem a Maria da Glória, a Maria Gorete, a Maria Bernadete, a Maria Margarete e a Maria Judite”, disse Maria Bernadete, que acompanhou a mãe em entrevista ao programa Ponto de Encontro. “A minha mãe é Maria, a minha sogra é Maria e eu sou Rosa Maria. Aí eu botei tudo Maria”, explicou dona Rosa. A história de vida de Rosa foi destaque em entrevista na Rádio Marconi. Ouça na íntegra:

Parte 01

 

Parte 02

 

Parte 03

 

Em entrevista, dona Rosa contou que é costureira aposentada pelo Estado. Durante a sua carreira, chegou a ser professora de costura de muitas mulheres. “Tenho até a lista das minhas alunas de costura, já morreram quase tudo”, afirmou. Rosa comentou que ainda lembra de muitas coisas que ocorreram durante seus quase 10 séculos de vida. “Mas eu esqueço de muita coisa. A gente passa muita coisa que tem que deixar para trás, depois eu me lembro, mas na hora eu esqueço”, mencionou. Rosa relembrou que as aulas de costura ocorriam na sede do Paraíso da Criança, onde estava instalada a Escola Profissional São José.

Como costureira, Rosa foi a responsável por confeccionar várias peças, principalmente uniformes escolares e as batinas de Monsenhor Agenor Neves Marques. “O Paraíso da Criança fazia aqueles aventalzinhos e tinha os ajudantes que faziam, pegar o botãozinho e coisas assim. Mas fazia para 60 meninas que estavam no Paraíso da Criança, tinha de vários uniformes”, comentou. Dona Rosa também foi costureira para lojas da cidade. “Na época da mineração, na loja Chiquinha, eles compravam peças de tecido para fazer roupa para trabalhar. Então eles tinham uma loja que cortava os pedaços e eu cortava o resto lá e fazia as camisas, tudo lá. Às vezes até ficava meia torta, mas eles pagavam tudo assim mesmo”, falou.

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Fé e a vontade de conhecer o mundo

A costura, porém, é apenas uma das linhas que atravessam a história de dona Rosa. A fé sempre ocupou um lugar central em sua vida. Desde menina, ela participava das atividades da igreja e ajudava na organização do espaço para as celebrações. A ligação com a religião era tão forte que, na juventude, chegou a desejar seguir a vida religiosa e tornar-se freira. “Minha mãe não facilitou, pegou uma vassourinha de varrer o fogão, de vime, ela bateu no fogão e disse assim ‘se tu falar mais em freira, vou te dar uma vassourada. Se tu não quiser namorar com o Antônio, não te deixo sair mais de casa assim'”, recordou a fala da mãe.

Mesmo não tendo seguido a vida religiosa, Rosa teve uma boa vida ao lado de seu esposo. No namoro, os dois se viam apenas a cada oito dias, na igreja. O relacionamento começou com conversas breves e encontros ocasionais, até que Antônio decidiu pedir sua mão ao pai. Rosa ainda guarda a aliança recebida naquela época, pequena lembrança de uma história que se transformou em família. Antônio já não está presente, mas permanece nas lembranças de Rosa. Ao falar sobre o casamento, ela recordou o companheiro com afeto e afirmou que foi muito bem cuidada por ele. Hoje, a família segue crescendo e reúne netos, bisnetos e tataranetos, que encontram na dona Rosa uma referência de carinho e experiência.

A fé também abriu estradas. Durante décadas, Rosa organizou viagens religiosas e turísticas, reuniu grupos de amigos e anunciou os passeios pela rádio. Aparecida, Santa Maria, o santuário do Divino Pai Eterno e outros destinos brasileiros fizeram parte de seus roteiros. Ela chegou a organizar cerca de 15 viagens a Goiânia e também conheceu lugares fora do país, entre eles a Terra Santa, Jerusalém e o Egito. Hoje, com a mobilidade mais limitada, Rosa já não percorre distâncias tão grandes. A vontade de sair, no entanto, permanece. A praia está entre os lugares em que gosta de estar, e o movimento dos aviões que passam pelo céu desperta lembranças das viagens realizadas.

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Confira a entrevista também em vídeo: