Depois de quase quatro décadas dedicadas ao Poder Judiciário de Santa Catarina, a desembargadora Ana Lia Barbosa Moura Vieira Lisboa Carneiro se aposentou nesta semana. Para Ana Lia, que agora prefere ser chamada pelo nome e não mais por Vossa Excelência, a sensação de encerrar a carreira é de dever cumprido. Natural de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, Ana Lia se tornou juíza ainda jovem, aos 29 anos de idade. Ao total, foram 38 anos atuando na magistratura. A doutora atuou nas comarcas de Urubici, Sombrio, Urussanga e Criciúma, aonde chegou em 2001 e judicou até 2020, quando foi promovida ao cargo de desembargadora do TJSC.
Em entrevista, Ana Lia contou que saiu de sua terra natal aos 17 anos para cursar a faculdade de Jornalismo na capital gaúcha. A influencia de seguir na área da comunicação veio de seu pai, carioca e médico veterinário, que apresentou um programa de rádio durante muitos anos. “Mas eu vi que não era isso que eu queria, que, na verdade, eu gostava mesmo era de leis, não é? Porque, para tudo, eu trazia isto, trazia a questão jurídica para aquelas minhas questões jornalísticas”, disse sobre a graduação em Jornalismo. “Eu fiz dois anos e depois fui fazer Direito e me formei em 1984”, falou. Antes disso, em 1982, Ana Lia se casou e, anos depois quando já era advogada, seu marido foi transferido para Florianópolis por conta do trabalho. “Então foi onde iniciei essa trajetória na magistratura”, contou.
Já em Santa Catarina, Ana Lia iniciou a sua carreira em Criciúma como escrivã judicial. “Acontece que eu já estava passando nas etapas da prova da magistratura, então eu permaneci como escrivã judicial de outubro de 1988 a maio de 1989, quando, então, venci todas as etapas do concurso da magistratura”, relembrou. “É claro que é tudo muito diferente, mas na minha época eram pouquíssimas mulheres e nós éramos extremamente cobradas, em todos os sentidos, até mesmo a conduta, era preciso que não se envolvesse com a comunidade, que se mantivesse sempre um pouco distante”, comentou. “Hoje não é mais assim, hoje existem muitas mulheres. Isso foi importante. Houve uma evolução natural, porque eu até acredito que a mulher seja um pouco mais focada nessas questões de se dedicar a concursos, porque concurso não é tu estudar para o concurso, é estudar até passar”, pontuou.
Como juíza, Ana Lia chegou a atuar na Comarca de Urussanga, município onde morou durante muitos anos. “Vivi aqui muitos anos, fiz aqui bons amigos, trabalhei aqui durante muitos anos”, falou. Ana Lia esteve atuando em Urussanga entre os anos de 1995 e 2001, quando foi promovida para trabalhar em Criciúma. No entanto, mesmo atuando em outra cidade, Ana Lia continuou morando em terras urussanguenses. As duas filhas de Ana Lia, inclusive, estudaram no antigo Colégio Rainha do Mundo. “Mas quando foram fazer faculdade em Criciúma, eram três na estrada, cada uma num horário, e aí ficou difícil, aí nós mudamos para Criciúma”, contou. “Mesmo assim, elas se formaram e cada uma seguiu o seu rumo, eu retornei e fiquei residindo aqui até dois anos atrás, quando me dividia entre Urussanga e o Tribunal de Justiça”, lembrou.
Ana Lia participou de uma entrevista especial no programa Ponto de Encontro e falou mais sobre a sua carreira na magistratura e sua experiência como juíza e desembargadora. Ouça na íntegra:
Em entrevista, Ana Lia esclareceu a diferença entre um juiz e um desembargador. Conforme a doutora, os juízes atuam em primeiro grau, gerando sentenças e decidindo conflitos entre as partes que ingressam com as ações. Quando uma parte recorre a decisão do juiz, o processo passa a ser julgado em segunda instância por um grupo de desembargadores. As câmaras são compostas por quatro desembargadores, mas o julgamento ocorre entre três deles. “São três pessoas que decidem e três pessoas que já trilharam um caminho muito longo na magistratura, que têm muita experiência, muita experiência de vida e muita experiência também processual, de análise de provas”, explicou.
Sobre sua aposentadoria, que iniciou nessa quarta-feira, dia 1° de julho, Ana Lia afirmou que acredita ter cumprido bem o seu papel. “Eu sempre procurei ter sensibilidade, sempre procurei agir de acordo com o Direito, de acordo com as minhas convicções e, não acima de tudo, mas unir a agilidade a isso. No período que aqui estive em Criciúma – acho que as pessoas, os advogados, aquelas pessoas aqui em Urussanga, as pessoas que atuavam no fórum – todos podem constatar isso, que eu sempre fui extremamente ágil. Todos os processos que chegavam na segunda-feira, até sexta estavam devolvidos à cartorária, decididos. Assim, fui na minha trajetória em Criciúma e combinei a minha trajetória no Tribunal de Justiça, sendo a desembargadora com menor volume de processos na minha área”, contou. “Eu encerro feliz, pensando que chegou o momento de eu cuidar de mim, cuidar da Ana Lia”, frisou.
Confira a entrevista também em vídeo:



































