Há 79 anos, as vítimas do Campo de Concentração e Extermínio Nazista Alemão de Auschwitz, na Polônia, eram libertadas. Milhões de pessoas sofreram durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente os judeus. Todos os anos, no dia 27 de janeiro, lembra-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Para destacar a importância da data e relembrar a barbárie cometida na época, para que nunca mais se repita, o programa Ponto de Encontro realizou uma entrevista especial com o professor Francisco Alfredo Braun Neto. Ouça na íntegra:

 

De acordo com o professor, a perseguição dos judeus inicia antes da Segunda Guerra Mundial, com os primeiros indícios já no século 19. Isso porque muitos países da Europa apresentavam um antissemitismo já no século retrasado. “Nós temos, por exemplo, na França em 1895, um caso famoso, que é o caso de Dreyfus. Dreyfus foi um soldado francês, ele era um general que foi acusado de espionagem, então ele teve as suas insígnias arrancadas em público, ele foi preso, foi mandado a uma ilha na Guiana Francesa. Na época, o escritor Victor Hugo entrou com uma campanha pública porque a situação não foi espionagem, mas sim pelo fato de ele ser judeu”, afirma o especialista. Outro ponto que colabora para isso é o fato de que a Inglaterra, quando começou a invadir países da África e Ásia, incentivava os judeus a deixarem o país inglês e se mudarem para outras regiões.

No entanto, conforme Francisco, a perseguição maior e a crueldade com os judeus se tornou mais forte com a Segunda Guerra Mundial. “A partir da década de 1930, com a ascensão de Hitler ao poder, essa questão se potencializa e se torna uma política de Estado, que foi a perseguição aos judeus, que provocou o holocausto”, explica. O professor ainda esclarece que há uma série de motivos que gerou o preconceito com os judeus, entre elas, a questão financeira. Isso porque muitos bancos e indústrias, principalmente na Alemanha, eram financiadas por famílias judias. “Havia também esse interesse em colocar a mão no sistema financeiro alemão, dos bancos sobretudo, e ter o controle da economia definitivamente, tirando dessas famílias”, afirma.

Além disso, a ideologia de que existiam raças superiores e inferiores era usada para justificar as crueldades com os judeus. “É a questão da eugenia, da ideia de superioridade, do melhoramento racial, dessa pseudociência, que era o racismo científico, a ideia de que existiam pessoas superiores, raças superiores e raças inferiores”, ressalta. “Logicamente é uma falácia, isso não tem nenhuma comprovação científica, mas eles se utilizaram dessas teorias, que já vinham aí do século 19, também porque isso tem uma correspondência com uma deturpação, na realidade, da teoria de Darwin, na origem das espécies”, acrescenta Neto. Além dos judeus, todas as pessoas que fugiam do padrão estético ariano eram perseguidas e consideradas doentes mentais, como os homossexuais, povos ciganos e até mesmo pessoas de outras religiões.

O professor utiliza um argumento de Hobsbawm de que a Segunda Guerra Mundial foi uma guerra de produção e destruição de massa, que matou, inclusive, muitos civis. Neto conta que, até a Primeira Guerra Mundial, as guerras até então matavam soldados. A partir dela, pessoas civis se tornaram vítimas, sendo até nas guerras atuais. Só que na Segunda Guerra, os ataques se tornaram maiores, com destruições de cidades completas através de bombardeios, como as explosões das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

Nos campos de concentração, as atrocidades contra os povos judeus e os que não faziam parte da visão ariana, segundo os nazistas, eram enormes. Além de serem forçados a trabalhar até a morte, muitas pessoas eram usadas como experimento pelos médicos nazistas. Segundo o professor, muitas peles humanas foram arrancadas das vítimas para a produção de capas de livros e até de itens de decoração. “Eles fizeram testes, por exemplo, eles queriam saber quanta pressão o corpo humano aguentava, então eles botavam prisioneiros do campo de concentração em uma câmara de pressão e botavam pressão até a pessoa morrer para ver quanto essa pessoa poderia aguentar”, exemplifica Neto.

Depois de quase 80 anos da libertação das vítimas, a história ainda deve ser relembrada. Toda a história e tudo o que aconteceu é repassado para as novas gerações, para que nunca se esqueça as atrocidades que o ser humano é capaz de cometer. Atualmente, o Campo de Concentração de Auschwitz se tornou um memorial, onde milhões de pessoas visitam o local. “É um lugar de memória”, conta. “Para gente ver o perigo que é uma guerra e muitas vezes a gente ter o cuidado para gente não embarcar em uma única versão da história, porque o nazismo era uma única versão da história, ela não aceitava outra versão, era o povo ariano, era a vontade do Führer, do líder, ela não permitia outra visão da história”, frisa o professor.

Dia Mundial em Memória das Vítimas do Holocausto é lembrado no Ponto de Encontro