Caracterizada como multifatorial, a obesidade é uma doença que causa o acúmulo do tecido adiposo, ou seja, do tecido gorduroso no corpo humano. De acordo com a pesquisadora e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), doutora Brunna Boaventura, o Índice de Massa Corporal (IMC) é uma das ferramentas simples de diagnóstico. No entanto, especialistas também avaliam outros aspectos que envolvem os órgãos do corpo que podem não funcionar direito. Dessa forma, a obesidade não é diagnosticada somente tendo como base o número do IMC. “A gente olha, analisa de forma global a saúde do paciente”, destaca.
Para a pesquisadora, não há só um fator que resulta na obesidade, por isso que ela é conhecida como multifatorial. “Não existe uma causa única, mas a genética é um grande aspecto que influencia na obesidade. A gente tem os aspectos que a gente chama que são biológicos e genéticos, que são dentro do próprio indivíduo. Então, toda a parte biológica, que está dentro do corpo do indivíduo, tem várias questões, tanto de biologia quanto de genética. Mas a gente também tem as partes externas ao indivíduo, que envolve aspectos do ambiente, que envolve aspectos que o indivíduo não consegue, necessariamente, controlar por si só”, explica. “Às vezes as pessoas ficam falando de uma maneira como se a obesidade fosse uma falta de força de vontade ou uma escolha pessoal, uma falta de disciplina. Isso é muito errado. A obesidade tem todo um poderoso aspecto biológico que faz com que as pessoas tenham, muitas vezes, uma desregulação no apetite, na saciedade, na fome, tem todos os aspectos comportamentais que são da própria doença”, acrescenta.
Conforme Brunna, a obesidade é considerada uma das doenças mais complexas que existem. “Como ela é multifatorial, não é só eu controlar uma coisa que vai diminuir a obesidade. Então esse é o grande desafio. A gente precisa de várias frentes, seja do governo, seja dos profissionais de saúde, seja da questão cultural, social, para que a gente consiga realmente cuidar das pessoas que vivem com obesidade”, reforça. A pesquisadora Brunna participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e abordou mais sobre o tema. Ouça e conheça mais:
Hábitos de vida, como alimentação inadequada e falta da prática de atividade física, estão ligados à obesidade, mas não os únicos fatores. “As pessoas falam como se fosse só isso a única questão associada à obesidade. E, às vezes, a gente vai ter uma pessoa que tem uma vida mais ativa, que ela tem um consumo alimentar, uma dieta ok, mais adequada, mas mesmo assim, ela não consegue tratar a obesidade dela, ela não consegue melhorar a própria doença. Então, a gente tem que cuidar muito para tentar entender a individualidade de cada pessoa com obesidade”, frisa a doutora. “A pessoa com obesidade tem apetite de uma forma diferente e, às vezes, a gente só simplifica achando que é uma questão de ‘coma menos e exercite mais’, que não é o caso quando a gente olha a complexidade dessa doença”, complementa Brunna.
A saúde mental está relacionada com a obesidade, por isso seu tratamento também precisa ser feito com diversos profissionais. “A gente tem toda uma questão que a gente chama que existe um comportamento alimentar que não funciona de forma adequada, de forma funcional na obesidade. A gente tem uma associação direta, muitas vezes, com ansiedade, com depressão. A gente tem o que a gente chama de baixa regulação emocional, muitas vezes a comida é uma forma de enfrentar situações de tristeza, de depressão. A comida é o que muitas vezes pode ajudar a pessoa a regular aspectos emocionais que ela não necessariamente quer sentir”, conta. “O tratamento da obesidade precisa ser com diferentes profissionais, isso que às vezes torna difícil e caro”, salienta.
Brunna também avalia as campanhas governamentais sobre a obesidade. Para a pesquisadora, elas são genéricas e preventivas. “Quando a gente pensa em tratar, de fato, a obesidade, a gente tem que ir por caminhos um pouco mais finos”, pontua. “Não adianta a gente falar para uma pessoa com obesidade para ela comer menos ultraprocessados. A gente precisa investir mais, e eu diria, especialmente na parte de saúde mental, os profissionais de saúde mental, porque a gente fala em mudança de comportamento, mudança de estilo de vida, só que a gente não dá suporte para isso. Uma pessoa não vai mudar de estilo de vida em uma consulta a cada três meses com um nutricionista ou com um médico, isso é um processo de mudança de hábitos, isso envolve aprendizado. Então eu vejo que o governo precisaria investir mais em programas que aumentassem o contato com o paciente, seja através de tecnologias, de aplicativos, grupos, que envolvam, que sejam modernos, porque às vezes as pessoas já estão cansadas de mais do mesmo”, complementa a doutora.
Ver essa foto no Instagram



































