O barulho das chaves e a maçaneta da porta de casa girando. Esse é um dos principais desejos que pais e mães gostariam de ouvir na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. Há 11 anos, a família de Vinícius Montardo Rosado aguarda uma decisão da justiça, assim como as 241 famílias, que tiveram suas vidas mudadas completamente com a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. “O que a gente viu nesses 11 anos foi isso: muita falácia, muita conversa, muita mídia e pouca ação”, destaca o pai de Vinícius, Ogier De Vargas Rosado. “Infelizmente, a gente vive em um país onde não se trabalha à prevenção. O que eu posso dizer desses 11 anos de muita luta, muita briga, de muitas vezes sermos incompreendidos, é que se aprendeu muito pouco”, acrescenta.

Vinícius tinha 26 anos. Ele, junto com a irmã, Jéssica, foram à festa na Boate Kiss. Com seus quase dois metros de altura, Vinícius conseguiu sair do local, mas voltou para ajudar outras pessoas. O pai afirma que não se sabe ao certo, mas, segundo os relatos das testemunhas, 14 pessoas foram salvas por Vinícius. “Era da índole dele, ele era um menino de ouro, é lógico que a gente falar depois que as pessoas partem, mas eu, como pai, posso atestar isso. Alguém me perguntou como que eu definia o Vinícius, como uma baleia: grande, forte e doce”, conta o pai.

Segundo Ogier, a família não se conforma com o que aconteceu. “Mas, com certeza, todos esses atos do Vinícius, toda a história que ele escreveu, nos dão um certo consolo de que ele fez a sua parte”, afirma. “A dor da saudade é algo que não se pode falar, eu tenho dito, eu sei o que eu sinto, eu não sei o que minha esposa sente, eu não sei o que minha filha sente, eu não sei o que pai nenhum sente, essa é uma dor única e eu peço a todos que nunca tentem sentir uma dor”, afirma. “Eu fiz uma promessa, isso em seu enterro, que enquanto eu tiver força, enquanto eu tiver voz, eu irei trabalhar para que isso não se repita, para que não se esqueça a Kiss e para que erros não se cometam, e pais novamente possam, na madrugada, como eu li um dia uma poesia chamada “Maçaneta”, possam ouvir a maçaneta da porta, na madrugada, girar, abrir e o sorriso, a risada, a conversa de seus filhos, voltando”, complementa.

Em memória aos 11 anos da tragédia, o programa Ponto de Encontro realizou uma entrevista especial com Ogier, que falou sobre a perda de seu filho, a reconstrução com a filha Jéssica, que sobreviveu à tragédia, e o sentimento de impunidade passado mais de uma década. Ouça na íntegra:

 

Para o pai, há um sentimento de tristeza em ver que, mesmo passando 11 anos, nada mudou. “Todos os dias temos uma tragédia que poderia ser evitada se tivesse um trabalho de prevenção muito mais sério e muito mais pensando em vidas e não em lucros”, destaca. “Uma tragédia não acontece por acaso, é uma série de errinhos que culmina, como eu digo sempre, num parafuso mal apertado, numa porca mal apertada, numa estrutura que estava ali e foi feita de maneira errada, são várias responsabilidades”, afirma. Para Ogier, o caso Kiss deveria ter um júri técnico e não popular. O pai ainda acrescenta que existem diversos responsáveis pelo o que aconteceu, entre eles o Estado e a União. Quatro pessoas, sendo dois empresários e dois músicos, chegaram a ser condenados no final de 2021, mas o julgamento foi anulado. Um novo júri deve ocorrer no fim de fevereiro.

Ele conta que, meses após a tragédia, o delegado afirmou que o grande vilão foi o gás tóxico liberado pela espuma presente no interior da boate. “E eu perguntei, e a fábrica da espuma? E o Ministério de Minas e Energia? O Inmetro? Porque tinha uma espuma que libera cianeto, que matava em 30 segundos, e estava presente em vários colchões, vocês têm aí, esses colchões ‘casca de ovo’ que têm no hospital. Cinco anos depois, no CT do Flamengo, mesma espuma. Como é que pode ser fabricado? Porque o que matou os nossos filhos foi essa fumaça, que matava em 30 segundos. Muitos jovens não tinham tempo nem de reagir”, comenta o pai de Vinícius. “Muitos erros foram cometidos e continuam sendo cometidos”.

Há três meses, a família ganhou um novo integrante, o filho de Jéssica, Francisco. “Um anjo de candura. É lógico que no fundo da alma a gente se pega olhando para ele e vendo um pouco do Vinícius, no sorriso, na alegria, na parte comportamental. A gente sabe que não existe uma reposição, mas, com certeza, o Francisco chegou para encher nossa vida de mais vida”, ressalta Ogier.

Produção e edição: Gustavo Marques

Por Karine Possamai Della / Rádio Marconi FM