Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) revelou a dificuldade que o Brasil está tendo em cumprir a meta de redução da desnutrição infantil até este ano, 2025. A meta está presente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “Pelo o que a gente está vendo, pelo cenário atual, ainda no ano de 2030, que seria a data limite, também não vamos atingir as metas por conta dos indicadores que nós temos”, disse a nutricionista Eliete Costa Oliveira, uma das autoras da pesquisa “Monitoramento dos determinantes da prevalência da desnutrição infantil no Brasil segundo indicadores da Agenda 2030 no ano de 2022”.

De acordo com a pesquisadora, há indicadores que contribuem para a desnutrição infantil no país. “O analfabetismo na população maior de 15 anos, que foi muito mais prevalente na região Nordeste; o pré-natal insuficiente, que ele foi mais prevalente na região Norte; o baixo peso ao nascer, na região Sul; o indicador de mulheres jovens de 15 a 20 anos que não estudam e nem trabalham, que foram mais importantes, mais avaliadas na região Norte e Nordeste, a prevalência foi maior; e a população ocupada de 10 a 17 anos, que caracteriza o trabalho infantil, na região Sul”, cita Eliete.

A autora também explica o porquê o analfabetismo e o pré-natal insuficientes são mais comuns em determinadas regiões do Brasil. No caso do analfabetismo, a nutricionista afirma que é por conta das políticas públicas voltadas para atender esse público. “Tivemos o plano de desenvolvimento da educação, que não foi atingido as metas, esse plano de 2014 a 2024, que a gente analisou, e a gente chegou à conclusão de que o Nordeste tem um percentual muito alto de municípios, 94% dos municípios não atingiram a meta de redução do analfabetismo, está muito vinculado a essas políticas, a dificuldade de acesso à educação, que ainda é grande, o trabalho infantil atrelado, os trabalhos domésticos às vezes para as mulheres”, conta.

O pré-natal insuficiente também está muito ligado a esse fator. “A dificuldade que as mulheres têm de permanecer na escola, a dificuldade que elas têm também, às vezes, de cuidado, afazeres domésticos, tem também a gravidez na adolescência. Então, todos esses fatores estão vinculados com o pré-natal insuficiente, e esse pré-natal insuficiente com certeza vai levar a mulher gestante a um baixo peso, ou excesso de peso, e o desfecho da gestação fica complicado e pode ocasionar o baixo peso ao nascer na criança”, esclarece Eliete. A autora e sua orientadora, Ana Karina Teixeira da Cunha França, falaram mais sobre a pesquisa em entrevista no programa Ponto de Encontro. Ouça na íntegra:

 

Entre os resultados mais surpreendentes, conforme destacado pela Agência Bori, está a presença do indicador de baixo peso ao nascer como um dos determinantes da desnutrição infantil ser mais prevalente na região Sul. “As possíveis explicações seriam as altas taxas de subnotificação de nascidos vivos no Norte e a elevada taxa de partos cesáreos no Sul, relacionados à interrupção de gestações de risco, com consequente redução da idade gestacional, aumento da prematuridade e viabilidade de recém-nascidos com baixo peso extremo”, analisa a nutricionista.

A pesquisa chegou à conclusão da disparidade regional que o Brasil possui. Segundo Eliete, isso também leva a como as verbas podem ser utilizadas nas regiões. “Como a gente fez essa análise por município, a gente viu que as regiões maiores são desfavorecidas e também essa questão das regiões, o investimento que se faz para a região Norte, Nordeste, ele, de certa forma, não tem favorecido alfabetizar essas crianças de forma adequada”, afirma. “Nós temos um quadro desfavorável de condição socioeconômica, de acesso ao serviço, acesso aos bens, ao serviço de saúde de qualidade, que às vezes não é acessível”, acrescenta.

Para os pesquisadores do estudo, o investimento deve ser, principalmente, para público materno-infantil. “Melhorar a educação, o acesso às meninas, às jovens à educação, para que elas tenham capacidade de melhorar o seu entendimento em relação aos cuidados com a criança, reduzir os índices de gravidez na adolescência, de gravidez indesejada, de ter crianças com baixo peso, de ter dificuldade de prover a alimentação a essas crianças”, conta Eliete. “Programas voltados para reduzir esse analfabetismo, programas voltadas para melhorar a assistência ao pré-natal, para que ele possa ser de qualidade em relação ao número de consultas, em relação a reduzir os riscos para o nascimento da criança”, complementa a nutricionista.