O preconceito relacionado à idade, conhecido como etarismo, continua sendo um desafio enfrentado por pessoas idosas, especialmente no mercado de trabalho e em situações do cotidiano. Fernanda Pompeu, escritora e roteirista com mais de quatro décadas de carreira, contou que sente isso no seu dia a dia. “Eu tenho 70 anos, continuo extremamente ativa, continuo trabalhando, quero continuar trabalhando, fazendo meus livros, publicando e, às vezes, eu sofro preconceito, sofro barreira. As pessoas não acreditam muito que alguém aos 70 anos siga ativo”, afirmou. Fernanda ficou muito conhecida pelo grande público como uma das roteiristas do programa infantil Mundo da Lua, da TV Cultura.
Fernanda utiliza muito a expressão “novos velhos” que, segundo ela, é um conceito nascido na França. Isso porque a atual geração é a primeira que chega aos 70, 80 e 90 anos com uma vida socialmente ativa. “Seriam novos velhos porque não acontecia isso. Por exemplo, a geração da minha mãe é uma geração com 60, aí já era considerado velho. A própria ideia do aposentar, essa palavra é curiosa, aposentar é voltar para os aposentos”, disse. “Isso tem desaparecido, tem se modificado, se transformado. Hoje, cada vez mais a gente vai ver pessoas que estão aposentadas, mas que arranjam uma segunda atividade, um outro interesse. Esses seriam os novos velhos”, acrescentou. Para Fernanda, a mudança no envelhecimento está relacionado com o avanço da medicina. “Uma coisa é você ter artrose hoje, outra coisa é você ter artrose há 40 anos. O conhecimento e o tratamento avançaram muito”, pontuou.
Embora tenha ocorrido esse avanço, outros fatores ainda são limitantes, principalmente no mundo profissional. Fernanda observou que existe uma invisibilidade profissional quando o assunto é uma pessoa mais velha. “Existe um pé atrás. É como se você não considerasse”, disse. “Eu sou uma pessoa que tem uma grande experiência em texto, em roteiro, etc, etc. Se eu, amanhã aí na sua rádio, abrem vagas para redator, alguém com mais de 60 anos tem poucas chances. É uma coisa que o outro lado, que tem 30, 40 anos, nem percebe”, comentou. “Esse apagamento é quase um apagamento profissional”, afirmou. Fernanda participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e falou mais sobre o tema. Confira:
Para Fernanda, há um desperdício de talento quando profissionais de mais idade são deixados de lado. “Há uma contribuição que eu posso dar e que muitas vezes é desprezada, nem escuta”, disse. Além da idade, o gênero também pesa na maioria das situações. Usando como exemplo o cinema, Fernanda pontuou que há mais papéis para homens maduros do que para mulheres maduras. “Isso é uma estatística, não é uma percepção. É assim que funciona. Você tem menos papéis para as velhas do que para os velhos, inclusive”, falou. Fernanda ainda frisou que o envelhecimento é desigual, referindo-se às condições sociais existentes. “Eu penso, se eu com 70 anos, recebesse uma aposentadoria que fosse um salário mínimo, sem nenhuma outra renda, aí tendo que comprar remédio… Eu acho que seria bem mais difícil. Mas eu não posso falar, eu falo a partir da minha realidade, que é privilegiada, eu reconheço. Mas, a partir desse privilégio, eu tento fazer as coisas de uma maneira ativa”, ressaltou.
Quando eu era velha
Sobre o tema, Fernanda lançou no ano passado o livro “Quando eu era velha”. A obra é um romance, possuindo personagens que abordam sobre o envelhecimento e o etarismo. “Tem uma jornalista, ela é aposentada e recebe a incumbência, a encomenda, de escrever sobre envelhecimento. E aí ela começa a conversar com as pessoas que ela conhece, em suma. A história vai rodando a partir disso. Mas o livro, acho que é essa a ideia dele: mostrar que os velhos estão vivos, fazendo suas histórias, e que a velhice é uma fase da vida, é verdade”, detalhou. Saiba mais do livro CLICANDO AQUI.








































