A imagem de que um médico é um “semideus” vem mudando ao longo dos anos. O doutor Rodrigo da Silva Müller, médico radiologista, busca desconstruir ainda mais essa ideia em seu livro “O que se passa na cabeça de um médico?”. “Eu me formei no fim dos anos 1990 e, na época, era bastante diferente. Os médicos eram valorizados mais pelas hard skills, pela técnica e muito menos pela habilidade de conviver com o paciente, de ser uma pessoa agradável, de ser uma pessoa acessível”, analisou. O médico contou que a obra busca destacar um pouco do drama que existe na medicina, no qual muitos pacientes acabam esquecendo que os profissionais da área também são humanos.

Para Rodrigo, há alguns fatores mais sensíveis, como ter que atuar em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica. “A maioria dos casos existe uma recuperação favorável, os médicos conseguem salvar os pacientes. Mas eles têm que lidar com a frustração daqueles poucos casos que eles não conseguem lidar, que não conseguem resolver o problema, que em alguns casos, infelizmente, se perde o paciente”, disse. “Isso aí tudo é uma carga emocional que vai se acumulando na carreira e a gente vai aprendendo a lidar, mas todo mundo sofre em algum momento com essas circunstâncias”, acrescentou.

Assim como qualquer profissão, os médicos também se sentem inseguros ao realizar determinadas ações. “A gente não tem total segurança do que vai acontecer. Então, a insegurança faz parte da nossa realidade. O que a gente tem que saber é lidar com essa insegurança e a melhor maneira de lidar é reconhecê-la, para termos os nossos recursos de lidar com ela”, comentou. O doutor Rodrigo salientou que os médicos acabam tendo a ânsia de querer fazer tudo e acabam esquecendo de reconhecer os próprios limites. “A gente acaba acumulando plantões ou, depois de um plantão, emenda com um dia útil e trabalha o dia inteiro, e às vezes emenda com outro plantão”, falou.

Além disso, o médico radiologista pontuou que muitos profissionais acabam levando as demandas do trabalho para a casa e a família. “Muitas vezes custa casamentos, muitas vezes custa tempo de lazer, porque é difícil a gente acabar o dia em que tenha se vivenciado uma situação extrema, uma situação dramática, e simplesmente desligar e chegar em casa e no outro dia lidar de novo. Não tem como não levar alguns dramas para casa”, destacou, complementando que, por isso, muitos médicos e profissionais da saúde recorrem a tratamentos psicológicos e psiquiátricos. O assunto foi abordado em entrevista, ouça:

 

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