Todo dia 10 de setembro é diferente para muitos urussanguenses. Familiares e amigos de 31 pessoas se recordam, todos os anos, da tragédia da Mina Santana, ocorrida em 1984. Aquela segunda-feira ficará marcada na história de Urussanga e na história da mineração brasileira. “Cobrir a tragédia de Santana foi algo, assim, para mim, dilacerante. Nunca imaginei que poderia ocorrer algo parecido”, afirma o jornalista Nei Manique, que na época trabalhava no jornal O Estado, de Criciúma. “O 10 de setembro virou uma data de luto, muito, muito marcante”, destaca. Para o jornalista, o episódio registrado no município fugiu completamente de qualquer parâmetro de insegurança no ambiente de trabalho.
O jornalista recorda que a primeira vez que esteve na Mina Santana foi em 1983, um ano antes da tragédia. Naquele ano, ele trabalhava como repórter na RBS TV e houve um princípio de incêndio na mina. “Desde aquela época se falava que havia muito metano, especificamente naquela mina”, diz. Quando houve a tragédia, a Companhia Carbonífera Urussanga (CCU) negava que havia o gás explosivo na mina, assim como negava outros problemas que os mineiros enfrentavam. Segundo Nei, o radialista da Rádio Marconi, Osmar Nunes, teve importante papel em cobrar as autoridades em busca de informações e esclarecimentos sobre o acidente.
Reportagens da época, escritas por Nei Manique. As fotos são de Ezequiel dos Passos.
O Monsenhor Agenor Neves Marques, fundador da Rádio Marconi, também é lembrado durante a cobertura da tragédia. Segundo Manique, a polícia não deixava com que a imprensa chegasse até a boca da mina e noticiasse o que estava acontecendo. O mesmo ocorreu no Hospital Nossa Senhora da Conceição, onde a imprensa era impedida pela polícia de chegar até o necrotério e saber quem eram as vítimas. “De repente saiu, eu não sei de onde é que ele saiu, como é que ele chegou, e aparece meio que empurrando a gente, passando no nosso meio, sem cumprimentar ninguém, o padre Agenor Neves Marques. Ele pegou a corda de isolamento, levantou e não pediu, ele ordenou: entrem vocês todos, fotografem e mostram ao mundo o que aconteceu em Urussanga”, conta.
Fotos de Orestes Araújo
O último corpo foi retirado da mina no dia 13 de setembro. “Aquilo foi uma eternidade para as famílias, para as esposas, para os filhos, pais, mães. Foi uma eternidade para todo mundo. Foi um negócio louco e, depois dessa tragédia toda, percebeu-se que havia necessidade de ter equipamentos adequados para enfrentar algum tipo de fato recorrente e as mineradoras tiveram que também criar brigadas de incêndio”, comenta. “Santana está presente na vida das famílias que perderam o pai, o marido, o companheiro, o filho. Mas a memória coletiva é muito efêmera, ela em pouco tempo esquece. As pessoas até lembram que teve uma mina que explodiu, ‘onde é que foi mesmo?’ ,’Foi aqui em Siderópolis’. Não, foi em Urussanga”, diz. “Não é para deixar cair no esquecimento, não por vingança, não por exigir punição, mas para lembrar o sacrifício daqueles 31 homens, o sacrifício que eles deram, para que aquilo nunca mais ocorresse”, afirma. Ouça mais na entrevista completa:
Lembrança dos que sobreviveram
O 10 de setembro também é lembrado pelos mineiros que sobreviveram à tragédia. “Foi um acidente que já estava premeditado a acontecer. A gente sabia que aquilo ali era de uma hora para outra e ia acontecer e não tomaram providência nenhuma”, conta Rudmar Maciel, o popular Amarelinho, que trabalhou no último turno do dia 6 de setembro, uma quinta-feira, véspera de feriado prolongado. Amilton Martins estava trabalhando na mina no dia do acidente, tendo passado pelo Painel 6, o que explodiu, minutos antes da explosão. Amilton lembra que estava com uma garrafa de café e que, por algum motivo, jogou o café fora e colocou água dentro, antes do acidente. Ao ser resgatado, encontrou um grupo de cinco pessoas rezando de mãos dadas. Foi a água da garrafa que ajudou os cinco a conseguir sair da mina. Para Amarelinho, uma das dores é não existir uma gruta na boca da mina em homenagem às 31 vítimas. Hoje, o local se encontra desativado e é de difícil acesso. Confira mais:
Amarelinho leva flores todos os anos, no dia 10 de setembro, na boca da mina.
Livro conta a história
Em 2021, o historiador Bruno Mandelli lançou o livro “A explosão da mina Santana: Uma tragédia anunciada”. A obra reúne relatos de sobreviventes, de familiares das vítimas, da imprensa e registros jornalísticos da época. “A gente sabe que é um tema sensível a toda a região, por conta da tragédia que foi, do trauma que gerou na população, nos familiares principalmente”, diz. O autor está preparando uma segunda edição do livro, que contará com mais informações da tragédia. A segunda edição deverá ser lançada em breve e estará disponível na Feira do Livro de Criciúma. A obra também deverá ser vendida em breve na Livraria Miotellos, em Urussanga.
Segundo o professor, a história também trabalha com as memórias. “Sempre tem que ter um cuidado em relação a abordar esses tipos de assuntos porque mexe muito com a emoção das pessoas, com as lembranças”, comenta. “Faz parte da nossa história, então a gente tem que estar relembrando, faz sentido para muita gente ainda relembrar esse fato e é importante que as novas gerações, que não conhecem, conheçam também para poderem sempre estar vigilante em relação à sua história”, acrescenta. Ouça:
Em 2024, nos 40 anos da tragédia, a Rádio Marconi realizou uma entrevista especial com um dos sobreviventes, o senhor Vercidino Francisco Galvão. Relembre:




















































