Natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Vanderson Barreiros se considera um verdadeiro urussanguense. Ele viveu no estado natal por 10 anos, até quando veio passar as férias na comunidade de Santana, em Urussanga, e sua vida mudou. Desde então, nunca mais deixou a região. “Uma comunidade acolhedora, onde tínhamos rios para tomar banho. Na época, era normal sair para caçar e a natureza toda que existia ao redor da vila de Santana”, contou. Segundo Vanderson, sua mudança ocorreu durante o período em que passou as férias na casa da avó Norma. “Me matriculou no colégio Lucas Bez Batti e eu fiquei. Fiquei, não tive mais vontade de ir embora. Dali eu consegui dar o início na minha trajetória aqui e, há muito tempo, eu me sinto um santanense de coração, um santanense nato, porque eu defendo a minha comunidade”, reforçou.

Vanderson contou que seu pai biológico faleceu ainda quando ele era criança, desde então foi acolhido por sua família materna. O tio de Vanderson, irmão da sua mãe, assumiu o compromisso de educar ele. “Para mim, ele sempre foi como um verdadeiro pai”, falou. “Ele me tem como um filho mais velho e eu tenho ele como um pai. Minha mãe, por conta das responsabilidades, morava em Porto Alegre, tinha que se desdobrar no trabalho, trabalhou muito. Em 2005 ela veio morar em Santana”, disse. Vanderson participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e falou mais sobre a sua história de vida. Ouça na íntegra:

Parte 01

 

Parte 02

 

O santanense relembrou que terminou o Ensino Fundamental na Satc, em Criciúma, já que sua família possuía ligação com o trabalho nas minas. “A gente fazia um exame de seleção e ingressava lá. Para o pessoal que morava longe, além do estudo de qualidade, tínhamos alojamento. A gente ia na segunda-feira e voltava na sexta”, recordou. “Quando eu terminei em 1990 o curso de torneiro mecânico, eu já saí empregado para Curitiba”, disse, destacando que esse foi seu primeiro emprego. “Simplesmente, quando a primeira vaga apareceu, eu disse ‘estou indo'”, comentou. Após um ano trabalhando em outro estado, Vanderson retornou para Urussanga e passou a atuar no antigo Móveis Pérola, onde permaneceu durante três anos e meio.

Carreira na Polícia Militar

Durante esse período, Vanderson se preparou para ingressar na Polícia Militar. No início dos seus 20 anos, ele passou a estudar para o concurso público, na mesma época em que estava finalizando o Ensino Médio. “Eu fui aprovado, porém eu não tinha terminado as provas finais ainda. Eu precisava da conclusão do Ensino Médio para levar a documentação. Aí eu me desesperei. Quando eu fui fazer as provas finais, eu fui com muita tranquilidade, porque eu tinha estudado muito, porque eu não podia perder aquela oportunidade”, falou. Vanderson ainda mencionou que, na época, passou o telefone do Móveis Pérola no seu cadastro para a PM. Em um determinado dia, quando foi chamado na direção da empresa, ele chegou a pensar que seria demitido. “Eu lembro que o encarregado me ofereceu um reajuste de salário, eu disse ‘eu fico lisonjeado, será que sou um funcionário tão bom assim?’. Aí ele disse ‘é porque é o seguinte: ligaram da Polícia Militar e tu foi aprovado e tem que ir lá levar umas documentações'”, recordou.

Vanderson entrou oficialmente na Polícia Militar em janeiro de 1995, atuando até 2020, quando ingressou na reserva remunerada. Na Polícia Militar, atuou inicialmente em Criciúma e também passou por Cocal do Sul. Grande parte da carreira foi dedicada à atuação em Criciúma, inclusive em grupos de policiamento ostensivo e tático. Em entrevista, ele destacou a importância da preparação técnica e dos treinamentos recebidos ao longo da carreira. Em 2005, Vanderson participou de um curso de nivelamento da Força Nacional, realizado em Brasília, experiência que, segundo ele, permitiu comparar a formação dos policiais de diferentes estados. “Nós podíamos não ter a experiência do combate urbano que se dá em São Paulo, Porto Alegre, Salvador, na cidade grande, mas a parte da técnica, na parte da teoria, a gente sabia muito e isso chamava a atenção dos comandantes naquela época”, falou.

Representatividade

O santanense também destacou muito a importância da representatividade negra. Ele considera a comunidade de Santana um importante espaço da população negra de Urussanga e afirmou que, durante sua infância, faltavam referências de pessoas negras ocupando posições de destaque. Em entrevista, Vanderson comentou que vivenciou algumas situações por ser um policial negro. “Era um tempo ainda que era muito difícil tu ver um negro em uma posição de poder”, destacou. Segundo Vanderson, ainda existe muito racismo velado na sociedade. Ele relembrou um episódio no qual sua esposa passou: ela estava sentada no hall de entrada do seu prédio aguardando um carro de aplicativo, quando chegou um corretor de imóveis e pensou que ela fosse trabalhadora do local. “Por que a minha família de negros não pode morar onde eu moro? São coisas que a gente vai vivendo no cotidiano”, refletiu.

Para Vanderson, mudanças sociais também passam pela educação das novas gerações e pela capacidade de reconhecer comportamentos preconceituosos que, no passado, eram tratados como simples brincadeiras. “Eu não vi nenhum encarregado de mina ser negro, eu não acompanhei isso, não tínhamos representação, eu não conseguia dizer com 10, 12, 13, 14 anos em Santana e dizer ‘eu quero ser igual o fulano’, e isso nos fez falta”, disse. “As pessoas muito se defendem hoje ‘mas era brincadeira’, ‘hoje é mimimi’. Cara, é brincadeira para ti que não está se sentindo ofendido”, reforçou.

Esporte

Além da trajetória profissional, o esporte também ocupa um espaço importante na história de Vanderson, especialmente o futebol e a relação construída com a comunidade de Santana. Ele relembrou a tradicional partida entre pretos e brancos, que começou de maneira simples, como uma forma de dividir os times, e acabou se transformando em um momento de confraternização e amizade entre os moradores.

Confira a entrevista também em vídeo: