Os dias intensos de negociação entre potências ocidentais e os russos não foram capazes de evitar um conflito. Na madrugada desta quinta-feira (24), autoridades da Ucrânia confirmaram ataques em ao menos 10 regiões do país. A invasão deixou o mundo em alerta. A Rádio Marconi, através do programa Ponto de Encontro, ouviu especialistas para explicar qual o motivo do enfrentamento e os possíveis desdobramentos da crise no Leste Europeu.

“Não existe uma única razão, sempre são vários fatores que juntos contribuem para que um certo evento aconteça. Eventos de guerra, eventos militares desse porte nunca são ocasionados por um único fator, mas sim por uma conjunção de fatores”, esclarece a professora de Direito Internacional da USP (Universidade de São Paulo), doutora Maristela Basso.

Segundo a especialista, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, vem alegando que o Ocidente não cumpriu com uma garantia que teria sido feita em 1990 de que a Otan não se expandiria para o leste. “A gente sabe que quando acaba a Guerra Fria significa que, Rússia, então a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e o Ocidente capitaneado pelos Estados Unidos chegam a um acordo de paz, fim àquela Guerra Fria, que não era uma guerra bélica, mas era quase bélica que havia. Nesse momento que termina a Guerra Fria, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se desfaz e nós vamos ter vários países independentes que vão ficar orbitando ao redor do maior deles que então ficou sendo a Rússia. Mas porquê que eu estou dizendo isso, porque nesse momento a Rússia saiu perdedora, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas saiu perdedora desse fim da Guerra Fria. Houve um acordo de que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e seus grandes expoentes da época dos anos 90, os países Ocidentais, não se expandiriam em direção à Europa do Leste, ou seja, a Otan não se expandiria aceitando a entrada de países que antes pertenceram à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e que passariam a ser agora apenas parceiros, vizinhos da Rússia, houve sim esse acordo. Acontece que os Estados Unidos, ou seja, a Otan, não cumpriram esse acordo e aí acabou se expandindo para a Europa do Leste e foi admitindo países que antes eram países da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Eu tô falando aí de países como Letônia, Estônia, Lituânia. E aí vamos imaginar como cresceu a Otan, que além desses países que antes eram ali da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, nós também vemos que a Otan admitiu a Polônia, admitiu a República Tcheca, e ficou aquele compromisso desfeito na medida em que a Rússia começou a ver que a Otan ia admitindo esses países vizinhos e se dirigindo então em direção as fronteiras da Rússia. Esse é o grande motivo pelo qual Putin diz: “eu quero que a Otan se afaste, eu quero que a Otan não assuma a Ucrânia”, porque seria um dos últimos redutos que a Otan poderia chegar para circundar mesmo a Rússia das forças da Otan. Então o primeiro grande motivo é esse”, afirma a doutora Maristela Basso.

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Foto: Aris Messinis / AFP

Segundo a professora, “é uma das crises mais sérias que tivemos desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. “Talvez a gente vai responder por uma guerra de proporções muito maiores do que nós vimos na Segunda Guerra Mundial. Vai ser uma nova Guerra Fria muito mais devastadora porque colocamos no poder homens que tem os seus interesses pessoais, o seu Business Plan particular (plano de negócios) acima dos do mundo. Então, erramos em votar em pessoas que são incapazes de ver a sua trajetória, o seu plano de trajetória interrompido por uma questão maior. Não sei se seria melhor lembrar de Biden (presidente dos Estados Unidos), Macron (presidente da França) e outros pelo que fizeram pelo mundo, evitando uma terceira guerra mundial. Ou se vamos lembrar deles como cabeças duras que nos levaram ao caos”.

Ouça a entrevista completa abaixo:

 

O Professor do Curso e Pós-Graduação de Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e Mestre de relações internacionais na subárea de segurança internacional pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Dr. Luiz Felipe Rebello, também comentou sobre a situação dramática na Ucrânia. “As lideranças políticas internacionais elas sempre tentam pensar a política internacional a partir de dois lados de uma mesma moeda. A diplomacia e as forças armadas, a figura do soldado e do diplomata. Então talvez uma situação como essa, a diplomacia teria que tentar entrar em voga, e não a diplomacia do lado ucraniano, mas a diplomacia das grandes potências. Porque para a Europa é uma situação de muita insegurança. A Ucrânia faz divisa com a Polônia, a Polônia é membro da União Europeia. A Rússia em termos militares é uma grande potência e com ampla tradição em batalha terrestre. Os analistas calculam que em duas semanas a Rússia estaria tomando Kiev (capital da Ucrânia). E a cartada do presidente Putin é que as forças armadas da Ucrânia se rendam. A ideia do presidente russo é restabelecer um presidente da Ucrânia que seja totalmente pró-Moscou” pontua o especialista.

Em entrevista à Rádio Marconi, o professor da Univali afirmou que a Rússia já vem apoiando separatistas há algum tempo. “Desde o ano de 2014, a Ucrânia cortou vínculos com a Rússia. Na região Sudoeste, uma região mineradora, na região de Donetsk existe uma guerra civil que morreram cerca de 9 a 10 mil pessoas nesses últimos 8 anos. Existem lá separatistas pró-Moscou. Então, já tinha uma guerra civil não muito noticiada pela grande mídia. E quando o presidente Putin viu que talvez não iria conseguir controlar o território ucraniano, não conseguiu também negociar diplomaticamente, os russos têm uma tradição histórica militar muito forte, ele quis implantar os seus objetivos através das armas” comentou Rebello.

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Foto: Aris Messinis / AFP

A Rússia não é apenas uma grande potência nos combates terrestres, mas também uma especialista em armas nucleares. “Uma situação não vista na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, e a grande questão que nos chama atenção, que não é uma ameaça somente para Europa, mas para o mundo inteiro, é a cogitação da utilização de armas nucleares, algo que acredito que não ocorra”, disse o pesquisador. Confira a participação completa:

 

Petróleo, milho, trigo, gás. A guerra entre Rússia e Ucrânia pode afetar a produção, fazer os preços dispararem e ter consequências sobre a inflação. “A Rússia é o maior produtor de milho e de trigo do mundo, é o maior produtor de gás do mundo, é o segundo maior produtor de petróleo do mundo, ficando atrás apenas da Arábia Saudita. Se houver uma desestabilização da Rússia, veja, você tem um problema de alimentos para o mundo, nós estamos falando de gás, estamos falando de petróleo, o preço do barril de petróleo já tá US$ 100. Então, digamos que a Rússia envolvida numa guerra dessas proporções, o mundo todo está em xeque. Vamos pensar só no petróleo, nós todos estamos em xeque, nós todos estamos comprometidos. Então é algo que todos nós vamos sentir, não é algo que vai acontecer só lá, todos nós vamos sentir direta ou indiretamente. Se nós não sentirmos os efeitos físicos, vamos sentir outros efeitos tecnológicos”, acrescenta Maristela Basso.

Produção e edição: Gustavo Marques / Rádio Marconi