O Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos é lembrado nesta sexta-feira, dia 25. A data visa lembrar parte da história cruel da humanidade, onde por mais de quatro séculos milhões de negros foram vítimas do tráfico humano em massa e da violação de inúmeros direitos. O dia é um momento de reflexão da história e o que ela causou e causa para inúmeras pessoas, através do preconceito e pelo racismo estrutural. Pensando em refletir sobre o tema e sua importância, o programa Ponto de Encontro abordou o assunto em entrevista com o coordenador do núcleo de pesquisas do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN) e professor de história, doutor Cláudio Honorato. Ouça na íntegra:

 

De acordo com Honorato, o Brasil é considerado peculiar comparado aos outros países que tiveram a escravidão por muitos anos. Dos quase 12 milhões de negros escravizados que foram levados à América, o Brasil recebeu quase 40% desse número. Para o especialista, isto tornou o país altamente dependente da mão de obra. Nas Américas se começa o pensamento de quem fazia o trabalho manual eram os escravos, eram pessoas inferiores, nascendo o estigma na sociedade que permanece até hoje, através da exclusão das pessoas negras em diversos bens, direitos e serviços.

Honorato analisa movimentos sociais que cada vez mais ganham força no mundo todo, como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), nos Estados Unidos, quando um policial branco matou um homem negro. “A gente vê em outros casos aqui no Brasil, de jovens negros sendo presos injustamente sem nenhuma prova concreta, e só depois de presos vão ter que provar a sua inocência. Então a gente vê essa intolerância, ela é muito presente, o que era antes no Brasil uma coisa velada, latente, que se manifestava de uma forma peculiar, ela está sendo muito direta”, comenta o doutor.

O professor também explica que existe uma confusão no país a respeito de raça e cor. O especialista esclarece que raça está mais associada a um sentido político e social, além de auto declaração. Já a cor é ligada ao fenômeno biológico, no qual a pessoa negra possui mais melanina presente na pele. Na história, existiram políticas de embranquecimento, no qual se pensava na eliminação da população negra. O pensamento de se aproximar do padrão branco europeu também era uma questão de posição social no Brasil.

“O ideal era se afastar ao máximo desse estigma da escravidão, porque preto, como eu disse que escravidão era sinônimo de trabalho, preto no Brasil sempre foi e continua sendo sinônimo de escravo, sinônimo de africano. Essas palavras sempre foram rejeitadas, sempre foram estigmatizadas. No Brasil, até hoje se você perguntar a descendência de muitas pessoas, que é uma coisa recorrente do tempo da minha mãe e da minha avó, as pessoas diziam que eram descendentes de índio, ninguém dizia que era descendente de africano por causa desse estigma da escravidão”, explica o professor.

Claudio de Paula Honorato – Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Educação e Cultura do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos – IPN

Honorato reforça que é necessário buscar mais informações e combater o racismo com a educação. Muitas vezes um simples comentário é racista e as pessoas riem porque não possuem conhecimento. “Dependendo da forma como você está usando, se ela é pejorativa, é uma forma de racismo, e isso acontece muito na escola entre as crianças, porque isso é uma prática que está na sociedade. Essas brincadeiras que inferiorizam os outros, é isso que a gente têm que nos policiar, porque nós fomos educados numa sociedade que é altamente racista”, ressalta. O professor completa que costuma dizer aos seus alunos que a colonização possui cor, sexo, origem e religião: é branca, homem, europeu e católico.

Além disso, muitas pessoas possuem uma visão estereotipada dos negros, onde acham que o negro é só sambista ou só jogador de futebol. Existem muitos ancestrais negros que eram professores, cientistas, engenheiros, jornalistas, e que ainda hoje ocupam muitas áreas. O professor ainda analisa que existe uma resistência em implementar na sala de aula uma educação antirracista. Um exemplo é quando envolve as religiões de matrizes africanas, onde muitas pessoas possuem preconceito por conta da falta de informação sobre o assunto. “Todas essas coisas são enfrentadas com a educação. É só com o conhecimento que as pessoas vão entender”, frisa.