A gagueira é um distúrbio do neurodesenvolvimento que causa dessincronização na relação do centro auditivo com a área pré-motora da fala. A gagueira causa dificuldades na fala e o problema pode apresentar diferentes graus que variam de pessoa para pessoa. A vice coordenadora do comitê de fluência do departamento de linguagem da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e diretora do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), doutora Astrid Mühle Moreira Ferreira, explica que o grau também pode variar conforme o histórico de vida do paciente. “É muito complexo, a comunicação depende também da interação social, daquele momento que você está vivendo. Então ela pode variar ao longo do dia, ela pode ser mais ou menos intensa ao longo da semana”, completa.

O diagnóstico é realizado por análises quantitativas e qualitativas das rupturas. Astrid esclarece que essas rupturas podem ser típicas, que são os bloqueios, repetições de sílabas e sons ou de palavras monossilábicas e pausas mais longas; ou rupturas comuns, como hesitações e repetições de trechos. A questão da velocidade da fala também é analisado pelo profissional da fonoaudiologia durante o mapeamento. “Muitas pessoas têm também o que a gente denomina de taquifemia, uma velocidade acelerada. Ou até tem uma velocidade um pouco mais acelerada, mas não tem todas as características da taquifemia, porém a gente também precisa organizar essas questões e saber o quanto que a velocidade articulatória e a de fala estão acontecendo”, esclarece.

A doutora Astrid participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e falou sobre a gagueira. Acompanhe a participação na íntegra:

 

Essas rupturas causadas pela gagueira podem gerar outros problemas como nas interações sociais. De acordo com a fonoaudióloga, existem pessoas que possuem várias rupturas na fala, mas que são muito comunicativas, conseguindo evitar as situações de fuga. No entanto, há pessoas que possuem rupturas leves, que muitas vezes passam despercebidas, mas que deixam de vivenciar situações, de falar e de ter interações sociais por achar que não falar exatamente determinada palavra é algo desagradável. “Então vai variar muito mesmo nessa questão de como a pessoa está no seu dia a dia, como também a sociedade na qual ela está inserida a enxerga, que espaço ela teve na vida dela no dia a dia, quais os impedimentos reais que ela tem”, ressalta a especialista.

Fatores emocionais, como o nervosismo, também podem contribuir para a gagueira. A fala se manifesta na área gestual dos movimentos articulatórios, desde a parte respiratória até a subglótica, que fica abaixo da laringe. Astrid também explica que a fala está presente no cérebro desde toda a elaboração, por exemplo, quanto menos áreas do cérebro precisar para elaborar a fala, mais energia sobra para a sinapse, região que transmite o impulso nervoso entre o neurônio e a célula, entre a área pré-motora e área auditiva. Além disso, também envolve o sistema límbico, que é o responsável pelas emoções.

“Eu estou confortável com o quê eu estou falando e com as pessoas com as quais eu estou me comunicando? Então tudo isso vai acionar outras áreas do meu cérebro, estão associada às emoções, mas as emoções também interferem na minha elaboração, na minha forma de eu olhar o meu interlocutor com o qual eu estou me comunicando e tudo isso pode influenciar sim no gesto motor”, comenta. Se a pessoa possui dessincronia, mas se sente confortável no assunto, ela irá se adaptar e não buscar sair da situação, seja desviando o olhar ou outra forma de fuga.

A remissão depende muito de quando a intervenção acontece. Segundo a fonoaudióloga, existem fatores que podem colaborar para a remissão da gagueira, como iniciar o acompanhamento desde os primeiros sinais, ainda quando criança nas primeiras falas. Outro fator também é a herdabilidade da gagueira, já que a chance de remissão diminui caso há mais pessoas na família com a gagueira. A remissão também acontece mais em mulheres do que em homens. “Se a criança não tem muita habilidade de fala, se ela tem algumas outras questões de dificuldade de falar alguns sons, se ela é uma criança que tem distúrbio do sono, que não tem um sono muito tranquilo, e questão alérgica também tem que ser investigado muito, com a probabilidade maior de a gente manter a gagueira e não ter essa remissão”, comenta Astrid sobre as comorbidades que podem influenciar também.

Gagueira Levada a Sério

O Instituto Brasileiro de Fluência – IBF pretende viabilizar soluções para gerar, aplicar e disseminar conhecimentos sobre a fluência e seus distúrbios, principalmente a gagueira, a fim de ampliar a compreensão sobre estas temáticas nos diversos segmentos da sociedade, em benefício das pessoas que apresentam distúrbios de fluência, de seus familiares e dos profissionais que atuam nesta área. Confira mais sobre o trabalho desenvolvido pelo IBF e outras orientações sobre o tema: Site e Facebook.