Embora deva ser lembrado sempre, o Dia da Inclusão Social foi celebrado na última quarta-feira, 10 de dezembro. A data foi criada para conscientizar sobre os direitos humanos e a importância de incluir todas as pessoas historicamente excluídas, como forma de combater também o capacitismo e promover uma sociedade justa e igualitária. Para o professor Filipe Macedo, que também é escritor, a data reforça a necessidade de incluir pessoas surdas ou com deficiência auditiva. Em entrevista, o especialista afirmou que a inclusão no Brasil avançou nos últimos anos. “A primeira, e eu acho que é a mais importante para a comunidade surda, é a questão da Libras”, disse. “Ela se tornou lei no ano de 2002, onde a gente conseguiu estabelecer no nosso país o segundo idioma oficial do Brasil. A nossa segunda língua oficial é a Língua de Sinais, e ela é brasileira, ao contrário do que muita gente pensa, que a língua de sinais é universal. Não é, cada país tem a sua própria língua”, acrescentou.

Filipe é totalmente surdo do ouvido direito e possui 50% de audição do esquerdo. Os livros do professor são relacionados ao tema, tendo lançado recentemente a obra “Família da Libras – Sentimentos”. “É um livro que vai abordar os sinais dos sentimentos. E por que isso é importante? Quando nós fazemos esse sinal, que é a letra L no queixo abaixando e levantando, é o sinal de água. Você sabe o que é a água, dá para ver, dá para tocar. Se eu coloco o meu dedo polegar e o dedo mindinho aberto com a mão fechada e faço uma pressão assim no polegar, é o sinal de caneta. A gente sabe o que é uma caneta, dá para tocar. Mas como eu explico para uma criança que não escuta o que é a saudade, o que é a tristeza, o que é a raiva? Nós temos um grande desafio na nossa sociedade hoje de ensinar sobre as emoções para as crianças”, explicou.

Em entrevista, o professor ainda contou sobre como descobriu que possuía uma deficiência auditiva. Segundo Filipe, a condição foi descoberta durante a sua primeira oportunidade de trabalho. “Às vezes a gente não entende o que está acontecendo, a gente não se sente diferente. Mas, no momento em que eu tive minha primeira experiência de trabalho, que à época era voltada para o atendimento de pessoas através do telefone, eu não estive apto a continuar na minha função justamente por conta dessa deficiência. Aí fui investigar e descobri que a minha perda auditiva é uma perda neurossensorial”, contou. “Eu tenho o meu tímpano com uma grande cicatriz, o que indica que, na infância, eu tive um rompimento”, completou. “A perda do ouvido esquerdo aconteceu por forçar uma audição. Hoje eu preciso me apoiar no aparelho auditivo para conseguir me comunicar melhor, para estabilizar essa perda”, explicou.

O professor também esclareceu sobre o uso dos termos surdo e deficiente auditivo. “Existe uma diferença. Não é mais bonito você falar deficiente auditivo. Na realidade, são duas coisas distintas”, destacou. “Uma pessoa surda é aquele indivíduo que nasceu com a deficiência. Ele não tem memória auditiva. Ele nasceu sem poder escutar”, afirmou. “Uma pessoa com deficiência auditiva se comunica, ela pode ter vários graus de perda ou uma perda profunda, mas, em algum momento da vida, ela soube o que é o mundo do som, da fala, enfim, de todos os barulhos e sons que habitam na sociedade ouvinte”, esclareceu. Outro assunto abordado pelo especialista é o uso do termo “mudo”, muito falado antigamente, mas que é considerado pejorativo. “Acabou se tornando uma ofensa para nossa comunidade porque a pessoa surda não necessariamente é uma pessoa com mutismo. Se nós usamos as nossas mãos para nos comunicar, nós temos uma língua, a gente tem expressão, tem gramática, semântica, tudo que uma língua precisa, cultura, nós não somos mudos, usamos nossas mãos para conversar. E, mesmo sem o advento da escuta, um surdo pode se oralizar e aprender a falar”, comentou.

O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista com o professor Filipe no programa Ponto de Encontro. Ouça na íntegra e entenda mais:

 

Conheça mais sobre o trabalho de Filipe, conhecido como Passarinho, em seu perfil no Instagram no @opassarinho. Veja também: