Embora os estudos não sejam tão recentes, especialistas têm cada vez mais alertado para a associação entre a saúde mental e as doenças cardiovasculares. De acordo com a doutora Carisi Anne Polanczyk, chefe do serviço de cardiologia e cirurgia cardiovascular do Hospital Moinhos de Vento, em um primeiro momento, acreditava-se que o maior risco cardíaco em pessoas com depressão ou ansiedade estava relacionado apenas à falta de cuidado com a saúde, como baixa adesão a medicamentos, ausência de atividade física ou alimentação inadequada. “Mas hoje se sabe que, além disso, existe uma relação biológica entre todo o nosso sistema, que a gente chama de sistema nervoso autônomo, processo inflamatório, processo pró-trombótico, e o risco de desenvolver problemas cardíacos. Então nós temos aí dois fatores: um, a pessoa deprimida ou ansiosa às vezes não se cuida tanto quanto uma pessoa sem essas condições, mas também tem um fator biológico que aumenta esse risco de doença cardíaca”, explicou a especialista.
Para Carisi, essa relação pode ser entendida como uma epidemia silenciosa. “Esse já é um conhecimento da área de cardiologia, do clínico, de quem acompanha esses pacientes, mas, às vezes, passa despercebido tanto pelo paciente, que não informa como ele está, ou mesmo não é questionado pelo profissional de saúde sobre ter alguma questão de tristeza, solidão, ansiedade, preocupação e não é feito esse diagnóstico. E, hoje, a gente sabe que essas questões de saúde mental, assim como as doenças cardiovasculares, estão aumentando e muito, quer seja pelos nossos fatores do dia a dia, nossos estresses. Então é uma epidemia, uma associação que tem crescido muito a ponto que saiu agora uma diretriz, uma orientação para os profissionais de saúde em relação a como nós temos que avaliar esses pacientes, esses indivíduos e como nós temos que orientar para reduzir o impacto dessa associação”, comentou.
A doutora também salientou que o isolamento social e a solidão têm impacto na saúde mental, assim como eventuais problemas cardiovasculares. Conforme a especialista, estudos indicam que a pessoa que sente solidão acaba desenvolvendo um desequilíbrio inflamatório e maior nível de estresse no dia a dia. Esse quadro pode descompensar doenças previamente controladas, como a aterosclerose e a insuficiência cardíaca. “A gente viu muito na pandemia de Covid-19, que as pessoas precisaram se isolar e, ao mesmo tempo, houve um crescimento grande de casos de infarto e de insuficiência cardíaca”, exemplificou. O assunto foi destaque em entrevista com a doutora Carisi no programa Ponto de Encontro. Ouça na íntegra:
Além dos fatores biológicos, a especialista salientou que muitas pessoas têm mais dificuldade de aderir hábitos de vida mais saudáveis. Por conta das condições financeiras ou pela rotina de trabalho, muitas pessoas não conseguem praticar atividades físicas ou costumam consumir alimentos mais gordurosos. “Também tem dois hábitos que estão relacionados à doença mental, que são bastante difíceis de se controlar, que é o tabagismo e a ingesta abusiva de álcool. Eles acabam acontecendo como uma forma de prazer e de compensação para muitos desses cenários, mas que eles, isoladamente, também levam a um maior problema cardíaco. Então também tem esse outro elemento que pode fazer com que essas pessoas acabem vivendo menos em função desses hábitos não saudáveis de vida”, frisou.





































