Uma vida marcada pelo trabalho, pela educação e pela política. Assim pode ser resumida a trajetória de Iris Maria de Lorenzi Cancelier. Urussanguense, Iris nasceu e passou parte de sua infância na comunidade de Rio Molha, tendo sido aluna na escola de Palmeira do Meio. Com o falecimento de sua avó, a família se mudou para o bairro Rio Maior, morando junto com o avô. Iris chegou a trabalhar um pouco na roça, principalmente ao acompanhar seus pais e levar a comida para eles. “Trabalhava um pouquinho, não muito, porque a minha mãe sempre pensou que eu deveria ser professora, ela insistiu, passei muito trabalho”, contou. Durante a adolescência, Iris atuou como babá na casa de muitas famílias urussanguenses. Isso ocorria para que Iris ficasse mais perto da Escola Barão do Rio Branco, na região central, já que ela morava no interior da cidade. “Eu parei em várias outras casas porque, todo ano, quando chegavam as férias, eu ia embora. E aí também, quando chegava no ano seguinte, eu procurava outra casa”, relembrou. Segundo Iris, a função não possuía remuneração. “Eu só ganhava comida e pernoite”, falou.
Isso de ficar na casa de outras pessoas ocorreu até quando a mãe de Iris conseguiu comprar uma bicicleta para ela. Iris ia até a escola na companhia de mais dois amigos, já que, naquele tempo, havia poucas casas na região, muito diferente de como é hoje. Iris contou que, na época de sua juventude, não havia ainda o Ensino Médio em Urussanga, conhecido como “segundo grau”. Por conta disso, Iris passou a estudar no Colégio Michel, em Criciúma, onde também fez o Magistério. As idas até Criciúma eram realizadas junto com seu irmão, que possuía uma motocicleta. Em 1963, aos 23 anos, o irmão de Iris faleceu em um acidente de trânsito. “Eu tinha 18 anos, ele 23. Fiquei sem ninguém, fiquei sozinha”, disse. Iris comentou que era para estar na motocicleta junto com seu irmão no dia do acidente, mas houve um problema com um ônibus e outra pessoa pegou carona com o seu irmão. Por conta disso, Iris voltou a pernoitar na casa de famílias que viviam na região central de Urussanga, já que não conseguia retornar todos os dias para o Rio Maior. Até Criciúma, as viagens eram realizadas de ônibus. “Aproveito este momento para agradecer a todas as famílias que me acolheram e me ajudaram a ser e a passar aquilo que sou hoje”, pontou.
Após se formar no Magistério, Iris prestou concurso público e conseguiu uma vaga na Escola Lucas Bez Batti, instituição estadual localizada no bairro Santana. Foi na própria sala de aula que Iris aprendeu, na prática, a como ser uma professora. A urussanguense lecionou na escola de Santana somente por um ano. Durante esse período, ela começou a namorar um rapaz que já era muito envolvido na política da cidade. Por conta desse envolvimento, Iris conseguiu ser transferida para a Escola Caetano Bez Batti, no bairro da Estação, onde se tornou diretora da instituição. “Eu enfrentei a escola com três turnos: das 8h às 11h; das 11h às 14h; e das 14h às 17h. Eu trabalhava o dia inteiro porque tinha muito aluno e tinha só duas salas de aula”, recordou. Foi aí que Iris iniciou um processo para reestruturar a escola. Através de muitas campanhas sociais, a escola buscou adquirir um novo terreno. O novo espaço adquirido ficava próximo à linha de trem. “A Ceusa começou a se desenvolver, foram para o governo e, quatro, cinco anos depois, tomaram o nosso terreno. Aí tivemos que comprar outro terreno, que é onde ela está hoje”, contou.
Iris ficou durante 23 anos à frente da direção da escola, tendo se aposentado no local. “Fui diretora de escola, fui coordenadora Regional de Educação, fiquei um ano só, tive que me escapar por causa do segundo grau do Barão do Rio Branco, porque eles não admitiam que outro de fora de Criciúma pegasse a coordenadoria. Além disso, depois no Estado, eu peguei outras funções também”, relatou, acrescentando que também atuou na equipe da Secretaria Estadual de Educação. Iris participou de entrevista no programa Ponto de Encontro e relembrou mais sobre sua história de vida e sua trajetória profissional. Ouça na íntegra:
Parte 01
Parte 02
A urussanguense iniciou seu envolvimento na política no final dos anos 1980, quando ainda era diretora. Iris deixou sua função na escola para se candidatar pela primeira vez como vereadora em Urussanga. “Eu já estava pensando no que eu ia fazer depois que eu fosse me aposentar como estatutária do Estado de Santa Catarina, porque eu não podia parar, eu tinha quatro filhos e tinha que encaminhar”, mencionou. “Então eu entrei para a política. Eu já conhecia muita gente, muita gente me admirava naquela época. Eu me propus a ajudar mais, a fazer mais coisas por Urussanga”, comentou. “Fui a primeira mulher a levar tanto voto. Então, fui presidente da Câmara, depois vim a ser vice-prefeita, tive muitos contatos com governadores, com deputados, pedi muitas coisas para eles, pedi recursos para calçar a rua, pedi abertura de novas escolas”, relembrou.
Iris foi vice-prefeita na gestão de José Vânio Piacentini. “Um mandato como vereadora e um mandato como vice”, falou. “Depois eu saí, não quis mais atuar em Urussanga porque aí eu estava com meu filho em Florianópolis fazendo medicina. Eu sei o quanto passei trabalho para estudar e me formar, que eu imaginei o quanto também ele estava passando trabalho lá sozinho”, contou. Sobre os anos em que esteve na política, Iris afirmou ter se sentido muito querida pela população urussanguense. “Eu sentia que o povo me apreciava, me dava valor e eu quis retribuir com ações que podia chegar a fazer”, afirmou. “Na época que eu fui vice do Vânio, eu pedi para o Vânio uma coisa: que ele honrasse os votos que eu tinha na Estação, porque eu tinha trabalhado muito tempo lá e, meu Deus do céu, a maioria dos votos eu tive lá na Estação e ele honrou, graças a Deus”, mencionou.
Desde que se aposentou, Iris tem realizado um dos seus desejos: viver no sítio. “Eu queria ficar em paz, fui para o sítio, porque eu não tinha mais condições, eu queria descansar, 60 anos, imagina, trabalhando desde os 18. Eu fui para o sítio e depois acabei trabalhando ainda mais”, falou, acrescentando que, após a aposentadoria, chegou a trabalhar na campanha de alguns políticos. “Depois saí e parei. Aí eu fui saber o que era política. Fui estudar política desde o começo, saber, porque eu não tinha tempo nem para ler. Eu trabalhava de manhã, de tarde e de noite”, refletiu. “E fiquei num sítio, sabe para quê? Me dedico hoje a São Francisco de Assis, tratando cachorros e passarinhos”, contou. “Eu não fico parada, não fico na cama”, disse. “Eu trabalho, tiro mato, planto alguma coisa. Estou sempre fazendo alguma coisa”, pontuou.
Confira a entrevista também em vídeo:





































