Nove em cada dez adolescentes, de 13 a 17 anos, que tentam comprar cigarros não são impedidos atualmente no Brasil. A maioria das compras é feita em estabelecimentos comerciais autorizados, como bancas de jornais, padarias, cafés e supermercados. É o que aponta um novo estudo de pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), intitulado “Lei, para que te quero? Dados comparativos da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) sobre acesso a cigarros por adolescentes”.

O membro da Divisão de Pesquisa Populacional do INCA e um dos autores do estudo, doutor André Szklo, ressalta que a pesquisa é a “ponta do iceberg”. O pesquisador conta que o adolescente é bombardeado por uma série de situações que o levam a querer o cigarro. “De 2015 a 2019, a pesquisa nacional mostrou que, entre os adolescentes, a proporção de fumantes não caiu. O que é um resultado muito ruim, porque deveria ter continuado caindo”, comenta.

Entre os fatores do problema está a venda de cigarros avulsos ao invés de maços, que também é proibido. “A gente tem ilegalidades se retroalimentando”, destaca. O doutor André ainda comenta que, no caso de jovens, há um acúmulo da dependência da nicotina com o passar dos anos, causando mais danos à saúde. O assunto foi destaque em entrevista no programa Ponto de Encontro com o pesquisador André. Ouça na íntegra:

 

Outro ponto destacado na pesquisa é o baixo custo do cigarro no Brasil. Na América Latina, o país é o segundo, atrás do Paraguai, que tem o valor baixo. “Desde 2017 a gente não consegue aumentar o preço real do cigarro no Brasil. Ele só vem caindo, já vem caindo há cinco anos seguidos, sofrendo, inclusive, interferência da indústria do tabaco, que é a grande interessada em ter jovens começando a fumar, porque ela tem que repor uma parcela dos consumidores adultos que, infelizmente, virá a falecer”, explica.

O pesquisador Szklo ainda comenta que os jovens também são manipulados por propagandas. “É importante conversar com esse jovem, com esse adolescente, e mostrar que, na verdade, ele não é um culpado, ele é uma vítima, ele é uma vítima de uma estratégia muito agressiva e muito bem elaboradora de marketing”, ressalta. O especialista afirma também que isso pode ser usado para que os jovens deixem de fumar. “Acho que nenhum jovem gosta de se sentir enganado ou de perceber que ele é uma marionete. Essa é uma excelente abordagem que os pais podem fazer”, acrescenta.

Outra forma de propaganda existente é o consumo dos chamados cigarros eletrônicos. Eles são vendidos com o marketing de que causam menos dependência e menos riscos à saúde. No entanto, quem faz essas afirmações é a própria indústria do tabaco, que quer justamente vender o produto e lucrar. No Brasil, a comercialização do cigarro eletrônico é proibida pela Anvisa.

Com informações de Agência Bori