Estudos apontam que as bebidas alcoólicas geram diversos efeitos no cérebro. Para a doutora e professora Karina Possa Abrahão, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), isso pode ser explicado devido ao tamanho da molécula do álcool, que é muito pequena. “Assim que a gente ingere aquela cerveja ou aquele drink, ele consegue atingir o cérebro muito rapidamente e afetar as mais variadas regiões”, contou. “A longo prazo, ele pode criar alguns problemas como déficits de memória, aprendizado, dificuldades de equilíbrio e coordenação motora”, acrescentou. Porém, conforme a especialista, quando o problema se torna crônico, ou seja, quando há a dependência do álcool, a bebida pode levar a atrofia cerebral de diversas regiões do órgão, gerando até problemas nos nervos periféricos, que podem causar formigamento e, em alguns casos, confusão mental.
Conforme a doutora, nos casos de dependência, a região do córtex pré-frontal é a primeira a ser atingida. “Essa região é importante para a gente tomar decisão, fazer planejamento das nossas ações, ter o controle inibitório quando algo não é adequado. O álcool danifica essa região ao ponto que nós nos tornamos, os indivíduos se tornam, mais impulsivos”, explicou. Karina também esclareceu que o hipocampo também é afetado, causando problemas como déficit de memória e aprendizado, além de afetar a absorção das vitaminas no organismo. “O álcool pode levar a maior probabilidade de desenvolver demência alcoólica na fase mais idosa e até Alzheimer”, comentou. Por fim, o álcool também afeta a parte de trás da cabeça, chamada de cerebelo. “É a região que faz com que nós conseguimos ter um equilíbrio, a coordenação motora fina. Então, a pessoa tem mais dificuldade de se mover, de fazer algumas atividades que requerem um comportamento motor mais fino”, pontuou.
Esses efeitos variam entre o cérebro de um adulto e de um adolescente. “O cérebro é um dos órgãos que mais tempo leva para terminar sua formação. Hoje em dia alguns estudos indicam que o cérebro está totalmente formado lá para os 24 anos. Então, qualquer uso de drogas, incluindo o álcool, antes dessa idade, vai causar alterações diferentes”, esclareceu. A doutora ainda frisou que, naturalmente, o adolescente já é mais impulsivo e se coloca em situações de risco. “O álcool vai potencializar esse tipo de efeito por agir em algumas regiões do cérebro que fazem com que nós tomemos mais risco, que pode nos colocar em mais perigo”, reforçou. O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista com a doutora Karina no programa Ponto de Encontro. Ouça na íntegra:
Mesmo que um jovem deixe de consumir álcool na vida adulta, os efeitos da bebida ainda poderão ser observados no cérebro. A doutora estuda os comportamentos de avaliação de risco com animais de experimentação e já observou esse caso em suas pesquisas. “Quando faz a intoxicação de álcool, por exemplo, em um animal adolescente, esses animais quando crescem e ficam adultos, mesmo que eles não utilizem álcool, isso faz com que eles tomem decisões mais arriscadas, mesmo quando são adultos. Esse é um exemplo da mudança e alteração de como o uso pesado de álcool, mesmo que não muito prolongado, mas em doses altas, pode levar a alteração do comportamento até de maneira persistente”, disse.
Karina ainda argumentou que há um estudo, da Inglaterra, que afirma que não existe dose segura de álcool. “O álcool, além de comprometer o cérebro, compromete os outros órgãos do corpo. A gente pode ter câncer, pode ter cirrose, pode ter problemas do estômago, e aí eles avaliaram isso e eles observaram que não há nenhuma dose de álcool que pode ser considerada segura”, reforçou. Porém, a pesquisadora salientou que o álcool está presente na sociedade há muito tempo, até mesmo nos anos antes de Cristo. “Não dá para negar que o álcool faz parte da nossa sociedade há milênios”, falou. Na opinião da pesquisadora, as bebidas alcoólicas podem ser usadas socialmente, desde que em baixas doses. “Para mim o mais importante é o conhecimento que as pessoas precisam se apropriar e também essa autoconfiança do controle comportamental entre o que é um beber saudável e o que pode ser um beber prejudicial, quando já sai desse controle”, opinou.




































