Em uma história dedicada à saúde e em uma caminhada na luta contra o câncer, Dona Maria Rodrigues Pinheiro segue forte com seus 71 anos de idade. Ela nasceu em Braço do Norte e, ainda quando recém-nascida, sua família se mudou para Rio Bonito, em Lauro Müller. Dona Maria teve oito irmãos e, em entrevista, contou que o seu tempo de criança, nas minas de carvão, foi incrível. “Eu vivi uma infância maravilhosa. Muito brinquedo, eu vivia lá dentro das minas de carvão, enquanto ganhava uns puxões de orelha e de cabelo, porque ia de encontro da máquina, porque eu achava que eu corria mais do que a máquina”, lembrou de forma bem-humorada.
Maria relembrou que conheceu seu marido, Amilton Pinheiro, no campo do Arizona, onde aconteciam os jogos de futebol. “Era o que tinha nos domingos para a gente e a gente ia para lá. Mas era muito bom, muito divertido”, disse. “Assim, a gente conversava e tal. Daí eu perguntei o sobrenome dele. Ele disse que ‘é Pinheiro’. ‘Ai, Pinheiro’. Eu não gostei do Pinheiro. Eu disse, ‘ai não, Pinheiro eu não quero’. Aí ele disse, ‘tá, mas a minha mãe é Gazola’. Tá, casei com aquele mesmo Pinheiro que eu não conseguia gostar e tive três pinheiros”, comentou. Quando se casaram, Maria e Amilton passaram a morar em Urussanga, na época ela tinha 22 anos de idade.
Dona Maria sempre busca ajudar a todos e, na área da saúde, não é diferente. Ela é técnica em enfermagem, no qual fez curso no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Urussanga. “A gente fez esse curso, nós tínhamos o Tadeu e o Bimba como nossos professores, que eram grandes professores”, relembrou. Maria sempre trabalhou em posto de saúde, em especial a unidade do bairro da Estação, onde ficou durante 31 anos. “Eu era funcionária do Estado e o posto pertencia ao Estado uma vez. Depois foi passado para o município, mas os funcionários que eram do Estado ficaram como funcionários do Estado. Até hoje eu sou aposentada pelo Estado, não pelo município”, ressaltou.
Maria contou o quanto gostava de seu trabalho. “Ah, era maravilhoso. A gente tinha trabalho”, disse. “Como nós trabalhávamos, meu Deus, como nós atendíamos. Mas, sei lá, passava o dia, era bom. Eu gosto muito de fazer alguma coisa para alguma pessoa. Então, para mim era muito bom. Eu me realizei muito do meu trabalho”, relembrou. Ela, assim como outras técnicas, era treinada para atuar em todos os setores do posto. “Trabalhei muito no preventivo do câncer, trabalhei muito na sala de vacina, o que eu não gostava muito era na sala do dentista, mas também ia, se precisasse a gente ia. Era muito bom”, contou.
Maria também falou sobre o reconhecimento das pessoas pela prestação de seu trabalho feito com amor e mencionou uma situação sobre essa retribuição de carinho. “Acho que faz uns dois anos, ainda recebi um telefonema, ‘Maria, quando é que tu volta a trabalhar que eu quero fazer meu preventivo?’, ‘Ai, minha filha, já estou aposentada’. Então, assim, isso aí agrada a gente”, comentou. Dona Maria participou de uma entrevista especial no programa Ponto de Encontro e relembrou sua trajetória profissional e história de vida. Ouça na íntegra:
Parte 01
Parte 02
Ainda sobre a saúde, Dona Maria destacou a importância da boa prestação de serviços e do tratamento às pessoas. “Se tu não atender bem, ela não volta mais a fazer vacina. E daí? Mesmo que tu vá à procura, mesmo que tu vá em casa, como nós íamos tudo em casa, mas o lugar de fazer vacina é no posto de saúde. Então assim, às vezes ela não vai mais. Então, o bom atendimento é o que faz tudo”, explicou. Ela ainda mencionou os momentos de aplicar as vacinas nas crianças e também as campanhas realizadas no interior. “Às vezes os pais não têm coragem de aguentar. A gente tinha que chamar outra pessoa para ajudar, porque eles não aguentavam. E se não aguentar firme, a gente não faz a aplicação certa”, explicou. “Recebi uma foto nossa vestida de palhaço vacinando. Ai, coisa de saudade, saudade (…), era muito bom. Como diz o outro, eu vivi a minha profissão”, acrescentou.
Maria também teve uma passagem na política, sendo vereadora por um mandato no ano de 2010. “Graças a Deus, eu tirei um pouco dessa política no sangue. Agora eu tenho que estar mais sossegada. Então, aprendi também a respeitar a opinião dos outros e abraçar todo mundo, que é isso aí que se leva na vida, essas brigas, essas coisaradas são bobagem, tudo bobagem”, posicionou-se. “Se preparar, acho que a pessoa que entra lá dentro tem que se preparar em conhecer as leis, isso é que era mais importante”, frisou, ainda mencionando que gostou da experiência.
Maria é integrante, junto com seu marido, do Movimento de Irmãos, o Shalom. Ela faz parte do grupo há 33 anos, desde 1991, e explicou o significado. “Tem gente que não sabe. É a paz, saúde, um cumprimento que Jesus fazia aos seus. É isso aí, Shalom. Um Shalom para você. Saúde, paz. É tudo de melhor”, explicou. No grupo, Maria atua em atividades sociais e ações da igreja.
A luta contra o câncer
A batalha de Maria Rodrigues Pinheiro iniciou em 2010, quando descobriu o seu primeiro câncer, na mama. Ela realizou o tratamento e quando pensou que estava livre da doença, outra surgiu. “Quando eu pensei assim, venci. Terminei a químio, terminei a rádio, o cabelo estava crescendo, estava bom. Aí vem aquela do rim. A do rim foi a pior”, contou. Dona Maria afirmou que os sintomas da doença a incomodam até nos dias atuais. “Até hoje eu sofro por causa do câncer de rim. Porque ele, depois de 15 anos, foi dar metástase. Então assim, para a gente foi um choque, pensei que eu estava livre desse ‘marvado’ e ele veio de novo”, comentou.
Além desses dois cânceres, Maria teve que lidar com outras lutas também. “Eu tive câncer de mama, câncer de rim, câncer de ossos, câncer no pulmão, câncer na outra mama e tem um tumor no pâncreas que ninguém diz que é maligno, que é benigno, então ele fica ali quietinho. Então, oito cânceres”, revelou. “Eu vivo me apalpando, como diz o outro, ‘procurando’, porque antes a gente procurava um nódulo no seio, hoje a gente tem que procurar um nódulo em todos os lugares, porque pode aparecer em qualquer outro lugar. Então, eu luto para isso”, contou, ainda mencionando que sente muitas dores.
Apesar das dificuldades que enfrenta, Maria pensa de maneira positiva e bem-humorada. “Só não posso andar ainda, mas sou obrigada a andar e a dançar um baile, porque, olha, muito tempo parado dentro de casa”, disse. “Eu gostaria de sair. Viajar, passear, ter autonomia de poder caminhar”, acrescentou. Ela frisou a importância do público feminino realizar os exames. “Tudo é muito caro (…), mas se a gente perder a saúde, é muito mais caro ainda. Por isso eu faço um apelo para as mulheres, vamos fazer a mamografia, vamos fazer os exames”, enfatizou.
Dona Maria enalteceu que as pessoas que estão enfrentando o câncer precisam de apoio nesses momentos desafiadores. “Precisa de orientação, de acompanhamento, eu também já tive, já passei por isso, já estou aqui. Essa é a informação que às vezes as mulheres precisam. Quem já passou por isso se torna um professor, porque às vezes a mulher chega em casa, a família não é tão presente e ela fica ali sozinha, sentada no sofá vendo televisão, chorando, chorando”, disse. “Se a gente chega lá e conversa, passa aquela tarde e conversa, já é diferente, já dá uma esperança de vida, uma esperança de melhorar, uma esperança de lutar”, reforçou.
Maria contou que qualquer pessoa está sujeita a ficar doente. “O que me ensinou é que todo mundo está sujeito. Pena que as criancinhas também estão. Mas todo mundo está sujeito a ficar doente. O triste é a pessoa que fica doente e não encontra apoio da família”, refletiu. “No começo, eu disse ‘mas por que eu?’ E às vezes as pessoas me perguntavam ‘Maria, tu é uma pessoa que reza tanto, como é que tu foi pegar essa doença?’, em primeiro lugar, não peguei porque quis. Rezar, todo mundo tem que rezar”, ponderou.

Amigas do Peito
O Amigas do Peito é um grupo de apoio às mulheres que possuem câncer. Após chegar em casa depois de uma das etapas do tratamento, Maria refletiu sobre a própria condição e se preocupou com outras mulheres que enfrentavam a mesma situação, muitas vezes sem saber como lidar com os cuidados necessários. A partir dessa preocupação, surgiu a iniciativa de oferecer orientação, acolhimento e apoio a quem passava pelo diagnóstico de câncer. “Eu disse: ‘como é que as mulheres vão saber como é que elas têm que se cuidar?’ Peguei as pessoas que sabiam, a gente se reuniu e a gente começou a ajudar as pessoas nesse sentido de colaborar com as informações para elas. Então, a gente ajudou. A gente ajudou até a pagar os exames, que era caro e demorado”, lembrou.
Ela também comentou sobre a importância da Rede Feminina de Combate ao Câncer, que foi fundada recentemente em Urussanga. “Vai ser uma coisa que vai ajudar mais outras pessoas, porque eu acho que o trabalho vai ser maior. Nós, Amigas do Peito, nos reuníamos, rezávamos por aquela que estava pedindo oração e a gente ajudava de alguma forma dentro das nossas possibilidades, e a Rede vai ser diferente, então pode ser mais abrangente”, salientou.
Maria também relembrou uma situação em que priorizou o atendimento de outra pessoa ao seu próprio. Durante uma consulta, optou por utilizar o plano de saúde apenas quando necessário, para que outra paciente pudesse ser atendida através do Sistema Único de Saúde (SUS). “Até o dia que eu fui na consulta, eu disse: ‘Não, deixa que eu consulto pelo meu plano, aí dou lugar para outra’”, contou. Para ela, atitudes como essa são uma forma de fazer o bem. Mesmo diante dos desafios impostos pela doença, Maria afirmou que gostaria de ter feito ainda mais pelas pessoas. Com fé e disposição para ajudar o próximo, ela segue enfrentando as dificuldades e incentivando outras mulheres a cuidarem da saúde.
Confira a entrevista também em vídeo:


































