O avanço da tecnologia transformou a forma como crianças e adolescentes consomem conteúdo e interagem com o mundo. Para Poliana Maluf, produtora audiovisual e estrategista criativa, a infância é o período em que a criança descobre que os sonhos e as fantasias criadas durante as brincadeiras podem se materializar nas histórias que ela assiste ou lê. De acordo com a especialista, essa descoberta se desenvolve à medida que a imaginação cresce e a criança amplia seu conhecimento sobre o mundo. “Eu trabalhei em algumas produções onde a gente acaba checando muitas pesquisas de desenvolvimento na infância e é muito comum ver que, hoje em dia, coisas que para a gente pareciam inimagináveis, como uma criança não ligar para assistir desenhos animados ou um filme de animação, hoje em dia são muito comuns. As crianças ficam muito no conteúdo rápido, acabam chegando em vídeos que, não necessariamente, têm uma narrativa e se perdem um pouco ali”, disse.

Poliana destacou que, além do excesso de estímulos, as crianças e adolescentes hoje contam com um excesso de opções. Ao sentar em frente à uma televisão, por exemplo, a pessoa está diante de um catálogo com mais de 5 mil opções de conteúdo, de filmes e séries. “Acho que se a gente pensa numa criança de não tantos anos atrás, que tinha acesso a uma fita VHS, que tinha um cinema para chegar no final de semana, é diferente”, observou. Poliana comentou que isso inclusive já mudou a forma como o cérebro de um adulto funciona. “A gente ainda não viu os resultados de como vai ser a geração que cresceu desde o dia 1 na presença dos vídeos curtos. Mas eu acho que a gente vai começar a ver mais dos efeitos disso nos próximos 15 anos”, afirmou. O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista ao programa Ponto de Encontro. Entenda:

 

Para Poliana, combater completamente a tecnologia não é uma solução viável. O caminho, segundo ela, passa por aprender a conviver com os recursos digitais de forma saudável, respeitando limites e incentivando atividades presenciais, esportes e contato com a natureza. A produtora audiovisual ainda reforçou que o tédio também desempenha um papel importante no desenvolvimento infantil, pois é justamente nos momentos sem estímulos constantes que surgem a criatividade e a construção da identidade. “Eu acredito que assistir um filme inteiro é uma experiência comparável a ler um livro inteiro. Pode ser que você não esteja gostando, mas em algum lugar você vai chegar, seja esse o lugar de ter uma experiência positiva ou de criar um pensamento crítico e construir os seus pensamentos e a sua imaginação a partir daquilo que você acabou de ver de forma intencional, que você escolheu sentar e, naquele momento, intencionalmente, o mundo se fecha àquela história que está sendo contada. E eu acredito muito nisso”, falou.