Muitos anos antes dos europeus pensarem em achar novas terras, o Brasil já era habitado por vários povos indígenas. O mesmo vale para a região Sul do país, como no estado de Santa Catarina, como hoje é conhecido. De acordo com o pesquisador e mestre em História, Rodrigo Lavina, uma sucessão de gerações de populações indígenas viveram na região durante séculos. O pesquisador destacou que antes mesmo dos Xokleng, povo indígena mais conhecido do estado, outros grupos viviam na região. “Já viviam aqui em épocas talvez recuando há 8, 7 mil anos, ou seja, em um tempo onde o próprio clima e a natureza eram diferentes, não era como a gente conhece agora. Então o que a gente procura na arqueologia é exatamente tentar estudar essas populações muito antigas que viveram e tentar, se possível, porque nem sempre é possível, relacionar elas com os povos que viviam aqui originalmente”, comentou.
Em entrevista, o historiador afirmou que há sítios na região Oeste do estado datados em 11 mil anos atrás. “Nós temos algumas datações muito antigas aqui para Taió, que chegam há 8, 9 mil anos. No litoral, a gente tem sítios arqueológicos datados de 8, 7 mil anos atrás também. Mas só que nós temos que pensar que, nessa época, toda a geografia da região era diferente. A Mata Atlântica, que é essa mata que a gente tem aqui na região, estava recém se formando, porque o mundo estava saindo de um clima muito mais frio e seco para um clima mais quente e úmido”, disse, acrescentando que o próprio nível do mar era mais diferente nessa época, ou seja, menor do que hoje. “Aprenderam a viver nessa região e sem causar, vamos dizer, grandes alterações na natureza ou no meio ambiente. Eles aprenderam como explorar esse meio ambiente sem causar uma destruição significativa nele”, afirmou.
Três mil anos atrás, enquanto a Europa vivia da caça e da agricultura simples, os povos indígenas também viviam do meio para poder sobreviver. “No jargão arqueológico, eles seriam caçadores-coletores. Ou seja, a caça e a pesca era um fator importante, mas não o mais importante, porque a caça e a pesca dá aquela proteína que tu precisa para ficar forte, mas não é uma coisa que tu vai ter todo dia. O todo dia, o que te sustenta, o feijão com arroz deles, era a coleta. Coleta do quê? De grãos, de frutas, de mel e insetos”, explicou Rodrigo. O historiador ainda falou sobre o processo que ocorreu até os indígenas saberem que determinados alimentos eram venenosos, como a mandioca, que foi domesticada e hoje é um dos principais alimentos da América Latina. “A gente conseguiu transformar muitos alimentos venenosos, ou que originalmente eram muito inferiores em proteína e tudo mais, em coisas que hoje em dia são básicas para a nossa alimentação”, frisou.
Relacionado ao consumo de proteína animal, Rodrigo explicou que muitos povos utilizaram a pesca, como os Sambaquis, um povo muito antigo que viveu no litoral. “A alimentação era muito baseada em recursos do mar, peixes de todos os tamanhos e também mamíferos marinhos. Eles comiam baleia, boto e lobos marinhos, inclusive em alguns casos pinguins também. Por quê? Porque eram recursos que chegavam na costa em determinada época do ano e eles não iam deixar aquilo ali sem ser aproveitado. Eu até hoje desconfio que as baleias não eram caçadas, eu nunca encontrei nenhum instrumento que sugerisse dizer que eles saíam para matar baleias, provavelmente eles pegavam as baleias que encalhavam nas praias, carneavam ali mesmo e consumiam aquela carne, usavam os ossos para fazer alguns instrumentos”, comentou. Rodrigo participou de uma entrevista especial no programa Ponto de Encontro e falou mais. Ouça:
Existia uma certa divisão de tarefas entre homens e mulheres das tribos indígenas. “Geralmente os homens ficavam encarregados da caça, da coleta de algumas coisas, de algum tipo de artesanato, por exemplo, cestaria, fazer as armas, flechas, os objetos para comida e, normalmente, as mulheres ficavam encarregadas da coleta e da agricultura”, disse, complementando que foram as mulheres as responsáveis pelo desenvolvimento de alguns vegetais. “Foram elas que fizeram toda essa experimentação com essas espécies nativas até transformar em espécies domesticadas. Os dois principais exemplos são o milho e a mandioca aqui na América Latina. Isso é serviço das mulheres”, pontuou. “Na verdade, toda a vivência em uma aldeia, em um acampamento desses, era comunal e todos tinham que colaborar para alimentação do grupo inteiro. Se um passava fome, todos estavam passando fome. Se um comia, todos comiam. A ideia é essa”, frisou.
Para o pesquisador, os povos indígenas que viviam na região onde hoje é Santa Catarina não eram nômades, mas tinham conhecimento total do território. Rodrigo afirmou que, durante o outono e inverno, os povos costumavam subir a serra por conta do pinhão, que também atraía muita caça, como o porco do mato. “Com aquele pinhão todo debulhado no chão, eles se concentravam e esses povos iam atrás também para caçar e ter muita comida durante uma época do ano. Inclusive eles desenvolveram um método de conservar o pinhão durante um bom tempo, que era colocando em cestas e botando dentro da água, porque aí ele fermentava, mas não estragava”, relatou. “Quando acabava a época do pinhão na serra, eles desciam aqui para a Mata Atlântica, por quê? Porque aqui nessa época começava a frutificar um monte de árvores, gabiroba, pitanga, araçá, bacupari, entre outras”, disse. “Eles não saíam daqui para entrar na região do Pampa, eles não tinham o que fazer lá, não era um território deles, eles não sabiam os recursos que poderiam explorar. Então, eles viviam sempre circulando dentro de um território onde eles conheciam tudo”, adicionou.






































