Embora a maioria das pessoas tenham ouvido falar recentemente, o hantavírus não é novo. Um surto da doença foi registrado em um cruzeiro que saiu da Argentina rumo à África, o que tem gerado repercussão na imprensa. Porém, de acordo com o doutor Fábio Gaudenzi de Farias, superintendente de Vigilância em Saúde, o hantavírus foi identificado pela primeira vez na década de 1950, durante a Guerra da Coreia. Na época, mais de 3 mil soldados ficaram doentes e apresentaram febre hemorrágica. “Foi feita essa investigação e, com isso, se determinou ou se conheceu a presença desse vírus. Na época ele foi chamado então de hantavírus por conta de ter sido identificado em roedores às margens do rio Hantan”, contou. Já nas Américas, o vírus foi identificado nos Estados Unidos por volta de 1993. “Logo depois foi identificado aqui no Brasil também, no estado de São Paulo e aí em outros estados, sendo que em Santa Catarina nós identificamos ele pela primeira vez aqui em 1999”, pontuou.
Conforme o especialista, a doença acaba se caracterizando de formas diferentes dependendo da região. No caso da região asiática e europeia, o problema é de forma mais hemorrágica, enquanto na América há a forma cardiopulmonar. “Aqui em Santa Catarina, nos últimos seis anos, nós identificamos 92 casos que levaram 28 pessoas à morte. Então, é uma doença grave, com o que a gente chama de taxa de letalidade em torno de 30%. É uma doença que a gente considera bastante grave, embora não tenha um número de casos tão grande, digamos assim”, observou. O doutor Fábio salientou que o tipo hantavírus depende da linhagem do roedor. No caso de Santa Catarina, há a presença do vírus da linhagem do rato Juquitiba, mais conhecido como camundongo-do-mato. A contaminação acontece do animal para a pessoa, ou seja, pessoas que têm contato com esse tipo de roedor devem ficar atentas. “O que aconteceu no cruzeiro é que uma pessoa teve contato na Argentina com a linhagem Andes. A linhagem Andes é a única linhagem que a gente tem identificado até hoje do hantavírus que tem transmissão de pessoa a pessoa. Ele é um vírus diferente dos outros, diferente do que a gente tem aqui no Brasil”, explicou.
Fábio contou que esse tipo de hantavírus se concentra na região da divisa entre Chile e Argentina. “A pessoa, então, que desceu do navio, se infectou lá e acabou indo para esse navio, que é um ambiente bastante confinado, um ambiente que é muito propenso a surtos e com isso houve a transmissão ali, com três mortes e dez casos identificados, até o momento, e mais outros pacientes que estão expostos que estão sendo monitorados”, pontuou. Por conta disso, o especialista falou que a situação registrada no cruzeiro é completamente diferente de casos registrados no Brasil, por exemplo. “Nós não temos a presença do vírus Andes aqui no estado. Os nossos roedores são diferentes do que albergam o vírus Andes. ‘Ah, mas nós temos divisa com a Argentina’, isso também trouxe preocupação. Só que o bioma da nossa divisa com a Argentina é um bioma completamente diferente daquele da região dos Andes, onde tem o roedor que transmite o vírus Andes”, acrescentou.
Em entrevista, o médico esclareceu como ocorre a transmissão entre o animal e o ser humano. “O animal vai procurar alimento, às vezes, próximo dos locais onde nós estamos, então próximo de um paiol, muitas vezes num celeiro, ou numa parte próxima à casa que tenha acúmulo de cereais não adequadamente armazenados, tampados, isolados. Esses animais da floresta vêm até lá, se alimentam, acabam deixando ali suas excretas, urina, fezes, saliva, e quando o ser humano vai limpar aquele local, ter contato, manusear esse material, essas excretas acabam aerossolizado, que a gente chama, virando uma poeira, eles são inalados e a partir daí acontece a transmissão, porque o ser humano acaba sendo um hospedeiro acidental, digamos assim”, explicou, acrescentando que, por isso, o ser humano acaba tendo uma doença muito mais grave quando infectado com o hantavírus do roedor do Andes. O assunto foi abordado em entrevista com o doutor Fábio no programa Ponto de Encontro. Ouça:
Os sintomas gerais de uma pessoas infectada com o hantavírus são febre, dor de cabeça e mal-estar, o que pode ser confundido com outras doenças infecciosas. Segundo Farias, o que chama a atenção é a evolução rápida que o vírus tem, principalmente com relação à falta de ar. “A hantavirose não causa sintomas respiratórios altos, não causa coriza, não causa tosse, não causa secreção, entupimento nasal, não causa esses sintomas que a gente chama de respiratórios altos”, reforçou. “Os sintomas podem evoluir para formas mais graves rapidamente, em um a dois dias. Por isso que a pessoa realmente tem que ficar atenta a qualquer sinal de piora. Eu estava com um quadro de febre, dor no corpo e começo a ter uma falta de ar? Obviamente eu preciso procurar um serviço de saúde para que eu possa ser avaliado e com isso ter o melhor encaminhamento, o melhor tratamento possível”, falou. Conforme o doutor, é importante que a pessoa fale se teve contato ou suspeita de contato com roedores silvestres.






































