Há algumas semanas o Brasil acompanha o desenrolar da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets. A discussão das apostas on-line ou as Bets, como são conhecidas, gira em torno do crescimento delas no orçamento das famílias, sua possível ligação com organizações criminosas e o uso de influenciadores digitais para promover essas apostas. No meio dessa discussão, há muitas pessoas que defendem a ideia de “aposta quem quer”. Porém, para muitos especialistas, como o médico da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Urussanga, doutor Gabriel Seemann De Abreu, não é assim que funciona. Para Gabriel, esse pensamento de “aposta quem quer” é um mito perigoso. “A frase parte do pressuposto de que as pessoas que são viciadas em jogar conseguem ter controle sobre todas as suas emoções, todos os seus comportamentos e todos os seus impulsos. Mas, a verdade é que a pessoa que é viciada em jogos on-line tem alterações neurológicas, neurobiológicas e alterações de comportamento que fazem com que ela cometa atitudes impulsivas sem conseguir ter um freio disso”, explica.
O doutor afirma que a frase “aposta quem quer” pode se assemelhar a dizer a um paciente que fuma duas carteiras de cigarro por dia que ele fuma porque quer, e não porque ele é dependente. “Eu acredito que essa frase de ‘aposta quem quer’, essa frase de liberdade, ela é extremamente inadequada para esse tema. Inclusive, é uma estratégia de que a indústria do cigarro também se valeu durante muito tempo de que ‘fuma quem quer'”, comenta. Gabriel salienta que essa ideia também já foi utilizada pela indústria das bebidas alcóolicas. “A indústria se vale disso de que as pessoas têm um livre arbítrio de escolher se querem beber ou não, mas poxa, aquela pessoa que bebe há 40 anos de forma não adequada, de forma com dependência química, ela não consegue frear. Então, esse discurso de que faz quem quer é muito superficial e é um pouco inadequado para esse contexto”, reforça.
O especialista esclarece que há diferença entre as escolhas racionais e as impulsivas. As racionais levam algum tempo, não havendo recompensas fazendo essas escolhas. Um exemplo é decidir qual horário será feita a limpeza da casa. Já as escolhas impulsivas, como fazer apostas, possuem um nível de recompensa muito grande, provocando alterações no sistema dopaminérgico. O doutor explica que existe uma área no cérebro, o córtex pré-frontal, que é responsável por “frear” esse desejo de apostar. “No paciente com vício em apostas on-line, esse impulso de querer jogar está exagerado e esse freio de que não deve jogar está inibido. Então, é completamente diferente de uma decisão mundana que a gente tem de que eu devo fazer uma coisa ou outra”, comenta. Embora exista diversas diferenças entre os pacientes, essas alterações no cérebro de quem é viciado em apostas pode se assemelhar às diferenças no cérebro de quem é viciado em cigarro, álcool e em outras drogas.
Além da recompensa mental que é muito grande, apostar provoca uma alteração na rotina das pessoas. “Elas não têm a liberdade de escolher se devem jogar ou não, porque elas são refém dos múltiplos contextos que fazem com que ela jogue mais”, diz. Entre os fatores, o doutor cita os influenciadores digitais e o próprio aplicativo que emite diversos estímulos. “Ele não é livre para escolher, ele, na verdade, é refém do jogo”, reforça. O assunto foi abordado com mais detalhes em entrevista com o doutor Gabriel no programa Ponto de Encontro. Confira mais:
O vício em apostas on-line traz diversos prejuízos para a pessoa, como no financeiro, no relacionamento com a família e no trabalho. Esse tipo de vício é atendido com frequência nos consultórios médicos. Para o especialista, é necessário regulamentar a propaganda das Bets. “Eu acredito que a regulamentação precisa colocar várias barreiras para que esse jogo se torne cada vez mais difícil e, quanto mais barreiras, menos as pessoas jogam”, afirma. Gabriel ainda salienta que é preciso incentivar a educação digital, principalmente entre os mais jovens, para que se entenda que esses aplicativos induzem à escolhas irracionais. Além disso, há a estratégia de influenciadores digitais para a divulgação das Bets. “É passado toda uma impressão de que a pessoa vai ganhar, ela vai ter pontos positivos e aquilo vai ajudar na vida dela e, em momentos em que a gente está mais suscetível, isso acaba se tornando uma verdade e a vontade de jogar acaba existindo”, pontua.
Para o médico, a recomendação é não começar a fazer as apostas on-line para não se tornar dependente, assim como funciona com as drogas. “A mensagem que eu tenho para dizer às pessoas que pensam em jogar é que não façam isso. A gente comentou aqui que muitas pessoas perderam muita coisa e, para aqueles que estão passando por isso, eu queria dizer que sinto muito, eu entendo vocês e podem procurar a gente, procurem os familiares, peçam ajuda, porque por mais que seja difícil, tem como sair dessa situação e viver uma vida tranquila, uma vida sem esses prejuízos, tanto financeiros quanto do dia a dia e de pessoas que a gente ama”, reafirma.






































