Embora não seja tão lembrado como nos grandes centros, o carnaval nas cidades do Sul catarinense já fez muito sucesso. Em Criciúma, por exemplo, as pessoas se reuniam para confeccionar fantasias e montar bloquinhos. Anália Lima, que coordenou muitos projetos de carnavais pelo estado, contou que a sua vó foi a formadora dos primeiros grupos carnavalescos de Criciúma. Neta de mineiros, Anália se recorda de crescer ouvindo relatos de como foram os primeiros carnavais na cidade. “Eles formavam os blocos, um bloco visitava o outro, não tinha clube, era na casa do outro, e provavam a fantasia embaixo da mina”, disse. “Era vendado os olhos para eles não verem a fantasia, porque eles tinham medo de algum componente contar para o outro grupo a fantasia que estava sendo feita”, relatou. “A minha avó morava na Mina do Mato, lá tinha a mineração, onde minha avó trabalhava, e o grupo dela saía lá da Mina do Mato, todos com fantasias, e vinha no bairro Santo Antônio, em outra casa, fazer a sua apresentação. E o pessoal do bairro Santo Antônio ia lá na Mina do Mato. Isso era o carnaval antigo de Criciúma, foi ali o meu início”, contou.

Segundo Anália, os primeiros bloquinhos de carnaval em Criciúma deviam ter ocorrido na década de 1950, já que a sua mãe viveu até os 93 anos de idade e relatou que, aos 9 anos, já tinha lembranças das festividades. Um período após o início, as apresentações passaram a ser feitas nos clubes da cidade. Anália também contou que o seu pai era marceneiro e, por isso, era o responsável por confeccionar os carros alegóricos. “Eu ia no barracão ver o meu pai trabalhar, fazer carro alegórico, aí eu já lembro bem desses desfiles que eram em Criciúma, eram grandes, tinha Vila Isabel, Embaixadores do Ritmo, a Escola de Samba do Pinheirinho, que desfilavam lá em Criciúma, que era a época de ouro do carnaval de Criciúma”, relatou. Anália falou mais sobre o tema em entrevista no programa Ponto de Encontro, onde recordou mais histórias do carnaval catarinense. Ouça na íntegra:

 

Professora aposentada há 17 anos, hoje Anália mora em Balneário Rincão, onde também segue atuando na realização de eventos carnavalescos. “Aqui eu fundei o bloco Amigos do Jaca e, esse bloco, sai basicamente com o abadá, mas mesmo assim, para sair com o abadá, a gente começa a função em agosto, pensando em um tema para fazer a música, faz uma reunião com os meninos, mexe na música, arruma aqui, você faz ali”, detalhou Anália sobre a organização de um bloco de carnaval. “Esse ano, a música que o nosso compositor fez, que é o Miguel dos Santos, foi sobre o time do Criciúma. Nós vamos homenagear o time. Então, essa música está pronta desde setembro, outubro, por ali”, complementou. Segundo Anália, o bloco Amigos do Jaca é bastante familiar, reunindo diversas pessoas para celebrar. “Eu gosto de trabalhar mais com o som da bateria, que é uma coisa que está se perdendo. Todo mundo acha que é só folia, não é, tem afinação de instrumentos, eles ensaiam, fazem tudo com muita competência, com cuidado”, disse também.

Anália ainda avaliou os atuais carnavais da região. Para ela, em termos turísticos, o carnaval não é tão aproveitado quanto deveria. “Pode fazer um bom carnaval envolvendo a comunidade e isso trazer muitos lucros para o município. Eu lembro que, na época em Criciúma, nós tínhamos 10, 15 costureiras trabalhando para o bloco, dois sapateiros, soldadores, comprávamos uma quantidade de material enorme em Criciúma”, recordou. “Na nossa região, quando a gente não aproveita bem a fatia do bolo, a fatia do bolo vai para outro lugar, e os projetos, nas prefeituras, não acontecem nesse aproveitamento, dessa parte cultural, aqui no Sul, de modo geral”, acrescentou. Apesar dessas mudanças no tempo, para Anália, o samba nunca irá morrer. “A gente vê, no Rio de Janeiro, em grandes centros, o que a organização de uma escola de samba faz na comunidade. É lógico que aqui é muito diferente, a proporção é muito menor. Mas todas essas famílias, que têm em Criciúma e na região, estão sempre com os filhos juntos e, aí, as crianças já crescem gostando disso que é muito nosso, que é o samba, que não vai morrer, não vai acabar”, salientou.