Depois das canetas emagrecedores, como o Ozempic e o Mounjaro, novos estudos indicam que em breve será possível tomar comprimidos para tratar a obesidade. Isso porque já há uma novidade no mercado: a orforgliprona. “Nós sabemos que já existe uma série de medicamentos baseados nessa molécula chamada GLP-1, só que nós tínhamos elas só na apresentação subcutânea e, agora, nós temos na apresentação oral, e essa que foi a grande diferença desse novo medicamento”, disse a doutora Sylka Rodovalho, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo. Segundo a especialista, o GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente no intestino, mas que também atua no cérebro, gerando a sensação de saciedade ao se alimentar. “Esse hormônio GLP-1 foi modificado de forma que ele tem um efeito extra na questão da saciedade. Isso faz com que a gente possa comer uma quantidade menor de alimentos, com certeza de menor caloria e isso ajuda muito na questão do peso”, explicou.

Além da saciedade, esse hormônio natural estimula a produção de insulina pelo pâncreas. É por isso que o medicamento é recomendado também para a diabetes. “Você percebe que é um hormônio natural que foi modificado para se tornar uma medicação, mas que por isso tem efeitos nessas duas questões: diabetes e obesidade, por aumentar a produção de insulina natural pelo pâncreas e estimular centros cerebrais que vão controlar mais a nossa fome, diminuir a nossa fome e aumentar a saciedade”, frisou. Conforme a doutora Sylka, já havia dados indicando que a orforgliprona é efetiva para pacientes que têm diabetes. “Agora nós temos dados recentes relacionando a medicação orforgliprona com a obesidade, mostrando que os pacientes que usaram a dose maior dessa medicação tiveram perdas de peso que chegaram a 10% do peso corporal. E isso é um resultado inédito com o medicamento em forma de comprimido, o que traz uma praticidade no uso”, salientou. Ouça mais detalhes do assunto:

 

A endocrinologista explicou que a eficácia da orforgliprona é muito parecida com os análogos. Porém, a diferenciação mesmo é a praticidade de poder tomar o comprimido do medicamento ao invés da injeção. No entanto, a orforgliprona pode apresentar alguns efeitos colaterais, principalmente por ser uma medicação à base de GLP-1. Segundo a doutora, os efeitos são gastrointestinais. “Nós temos efeitos em aumento de um pouquinho de náusea, aumento da lentificação do trânsito intestinal, podendo levar tanto a uma obstipação intestinal, que é o intestino preso, como também um pouco de diarreia”, contou. “Mas são efeitos já conhecidos, efeitos que o paciente se adapta ao longo do uso dessas medicações”, pontuou. Segundo a doutora, pesquisadores estão estudando mais para avaliar a eficácia da medicação. “Mas eu acho que o acompanhamento tanto do diabetes quanto da obesidade é um acompanhamento crônico. Então os pacientes precisam do medicamento a longo prazo”, afirmou.

A orforgliprona, assim como similares e as canetas emagrecedoras, é indicada para pacientes com diabetes tipo 2 ou pessoas que possuem obesidade. “Nós temos uma grande quantidade de pessoas com sobrepeso e com comorbidades associadas, pessoas só com obesidade e 10% da nossa população tem diabetes tipo 2. Quase 50% da nossa população está na faixa de sobrepeso e obesidade. Então, é uma gama muito grande de pacientes que poderão se beneficiar dessa medicação de uso oral”, comentou. A doutora avaliou que a orforgliprona deve ser liberada para crianças e adolescentes mais à frente. “Quando a gente tiver os estudos focados nesse grupo etário. Apesar de estarem aumentando o número de crianças e adolescentes com obesidade e também com diabetes tipo 2, ainda faltam dados para que a gente comprove segurança nessa faixa etária”, ponderou.

Os estudos sobre a medicação foram apresentados na semana passada, durante o Congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD 2025), que ocorreu na Áustria. De acordo com a doutora Sylka, os estudos estão sendo finalizados e os especialistas esperam que, em breve, o medicamento esteja disponível no Brasil. “Mas tem todo um trâmite legal. A Anvisa precisa fazer a aprovação e a empresa que fabrica esse medicamento estar com disponibilidade para que ele seja lançado no Brasil. Então, nós esperamos que isso aconteça no próximo ano e torcemos para que haja uma aprovação da Anvisa para beneficiar os pacientes com diabetes e com obesidade”, disse a especialista.