Embora a discussão seja atual, o termo adultização e seu conceito vem sendo estudado há muitos anos. A adultização é caracterizada por atribuir e expor precocemente crianças e adolescentes a responsabilidades, ações e expectativas que são de adultos. A doutora e professora Sandra Cavalcante salientou que, na época da Revolução Industrial, as pessoas já tratavam as crianças como mini adultos, colocando-as em trabalhos e em outras funções. “A grande questão é que agora a gente tem certeza dos impactos, dos prejuízos nessas vidas quando submetidas a responsabilidades, a situações e ao estresse que deveriam ser destinados quando a pessoa tiver um amadurecimento físico, intelectual e emocional para enfrentar essas situações que, pelo menos, deveriam ser destinadas às pessoas adultas”, comentou a especialista.
Para Sandra, diversas situações podem ser caracterizadas como a adultização de crianças e adolescentes. Uma delas é quando, mesmo que na melhor das intenções, os pais enchem a agenda dos filhos de compromissos, deixando de lado a importância de brincar, que é essencial para o desenvolvimento da criança. Outro exemplo é quando a família busca um sustento financeiro na criança. “Por exemplo, esses artistas mirins ou os jogadores de futebol que, às vezes, muito cedo, começam com a responsabilidade de sustentar a própria família. Isso não é obrigação de uma criança”, destacou. “Criança não é adulto em miniatura”, reforçou. Ouça mais detalhes do assunto na entrevista completa realizada com Sandra dentro do programa Ponto de Encontro:
Sandra frisou que, com o advento da internet, certos comportamentos e situações reforçaram ainda mais a adultização precoce. “Por exemplo, a exposição de fotos, quando era em um álbum de família era muito restrito o acesso a essas imagens. Hoje não, a gente já aprendeu que colocou na rede, foi embora”, comentou. Isso pode ser utilizado por pessoas mal intencionadas, como redes de pedófilos, que utilizam imagens de crianças e adolescentes. “Naquele contexto que a criança estava em uma praia com os familiares, já se usou da imagem da criança para colocar em outro contexto horroroso, que virou um crime”, disse a doutora. Essa questão também é mencionada pelo psicólogo Alex Cambruzzi. “Se você for publicar algum conteúdo de criança, não publique conteúdos em que essas crianças estejam com roupas íntimas, com roupas de banho, porque isso, infelizmente, acaba caindo dentro de uma rede que é uma rede perigosa. É uma rede que pode, inclusive, daqui a pouco estar perseguindo o seu filho e tentando fazer alguma coisa além do espaço virtual”, alertou.
No âmbito da internet, Alex ainda reforçou que o acesso irrestrito às telas e às redes sociais também pode ser uma forma de adultização. “Quando eu trago para uma criança que está lá nos seus 9, 10 anos, que ela deve fazer dancinhas que tragam curtidas e que cada vez que ela demonstra uma sensualidade nessa dança, ela conquista um número maior de pessoas na audiência desse conteúdo, eu adultizei essa criança, eu trouxe uma coisa que não pertence ao estágio maturacional”, exemplificou. “Uma criança que tem seus 10 anos, agora começou a ter uma rede social e, nessa rede social, ela vê que, para ela ser validada, ela precisa postar fotos fazendo várias viagens e ela não ganha curtidas, ela não ganha likes (…) ela vai tentar resolver de uma maneira em que o cérebro não tem capacidade ainda suficiente para conseguir resolver de uma maneira mais funcional. Ela fica ansiosa, ela começa a ter baixa autoestima, ela pode ter sintomas depressivos, ela pode ter irritabilidade, tudo em uma etapa onde a mente não tem condições ainda de lidar por conta própria com aquele bombardeamento de dificuldades”, acrescentou.
Segundo Alex, outro exemplo de adultização é quando os pais tratam o filho como um conselheiro. “A mãe começa a contar para esse adolescente sobre as suas vivências emocionais, suas dificuldades dentro da realidade do ambiente de trabalho, que pode partilhar, é importante até que ele entenda, que ele compreenda que isso existe na realidade do adulto. Mas ele não pode ser a pessoa que passe a compreender que é a responsável por fazer como resolver aquela situação”, explicou. Ouça mais:
Leia também:
Adultização: psicóloga infantil alerta para consequências da exposição precoce de crianças






































