Com mais de 30 anos de serviço na Polícia Militar, o coronel Cristian Dimitri Andrade possui uma história de vida carregada de experiência em prol da segurança pública. São diversos fatos que o marcaram, e que exigiram muito treinamento e preparo para lidar com situações inimagináveis. Inspirado pela profissão desde a infância, Cristian viu em seu pai a paixão pela área, sentimento que carrega até hoje. O programa Ponto de Encontro realizou uma entrevista especial com o coronel Dimitri, que contou todos os acontecimentos que marcaram seus 30 anos na Polícia Militar. Ouça na íntegra:

Parte 01

 

Parte 02

 

O início

O pai de Dimitri era soldado do Exército. Desde pequeno, Cristian tinha o convívio diário com o trabalho do pai. Por conta disso, a família se mudava muito devido às transferências. Cristian viveu em várias cidades e estados, sempre se inspirando no pai. Aos 12 anos, Dimitri vestiu as fardas do pai que estavam no armário. “Eu ia no batalhão, via a banda tocando, via a bandeira nacional sendo hasteada e aquilo ali ia me dando ânimo para uma vocação militar, que despertou aos 17 e 18 anos, mais verdadeiramente”, relembra. Desde a juventude, Dimitri passou a estudar em Colégio Militar, convivendo ainda mais com o desejo de se tornar um policial.

Carreira

Dimitri iniciou o curso de formação de oficiais, ingressando na corporação em 1992. Após formado, é necessário passar quatro anos de semi-internato, com dedicação exclusiva à Polícia Militar. Suas atividades como aspirante oficial começaram na cidade de Criciúma, no 9º Batalhão. O coronel iniciou os seus trabalhos no comando do Pelotão de Patrulhamento Tático de Criciúma, como tenente, entre os anos de 2000 e 2008. Dimitri também foi capitão da 2ª Companhia de Içara; trabalhou no BOPE em 2008 e 2009; em Concórdia em 2010 e 2011; e no 19° batalhão de Araranguá entre 2016 e 2017. Assumiu o 6° Comando Regional de Polícia Militar, em 22 de julho de 2021, em substituição ao Coronel Evandro de Andrade Fraga. Além disso, no mesmo ano, foi promovido ao posto de Coronel. Atualmente, o coronel está na reserva remunerada desde novembro.

Ocorrências marcantes

Nos mais de 30 anos atuando na Polícia Militar, Dimitri participou de diversas ações e chamados. Já em 1996, o policial participou da ocorrência de assaltos a dois bancos, em um mesmo dia, em Siderópolis. “Foram cinco dias que os nossos policiais foram mobilizados aqui na região. Só saímos do local após prender toda a quadrilha, apreender o armamento deles e recuperar o dinheiro dos bancos”, comenta. “Foi marcante naquela época porque o sogro do subtenente Everaldo faleceu, ele foi morto, foi assassinado por aquela quadrilha”, conta.

Nos anos 2000, o Presídio Santa Augusta foi marcado por uma rebelião entre os presos. “Foi no dia 31 de outubro do ano 2000, a gente lembra porque era 31 de outubro, dia das bruxas”, fala. “Todos os presos se rebelaram, não só batendo grade, não só gritando, eles quebraram todas as grades, todas as celas do Presídio Santa Augusta. A galeria A, a galeria B, a D, todas, e ficaram livres nos corredores, nos pátios, e aí tinha que ser restaurada a ordem pública”, destaca. A Polícia Militar de boa parte do estado foi mobilizada para conter a rebelião. Dimitri frisa sobre o preparo dos policiais para agir diante de uma situação dessa, já que havia um grande perigo. “Eles podem vir, pode arrancar o armamento. Aí o diferencial, espírito de corpo, presença, controle emocional”, fala.

Quase no final do mês de agosto de 2003, Criciúma foi marcada por um assalto que mudou o cenário da segurança pública: o assalto ao Unibanco, na avenida Centenário. “Naquela ocorrência de 26 de agosto de 2003 nós perdemos dois policiais mortos, o cabo Buratti e o cabo Joel Domingos”, ressalta. “Os meliantes não levaram nada do banco (…), mas perdemos dois policiais”, completa. Dimitri ressalta que é por conta de ocorrências do tipo, no qual colegas, amigos e familiares acabam morrendo, que um policial passa por tantos treinamentos, principalmente no emocional.

Uma das ocorrências que marcou todo o país, principalmente o Sul catarinense, foi o mega assalto em Criciúma, em dezembro de 2020. Na época, Dimitri era o comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar. “A gente não vai esquecer essa  data tão cedo. Ela foi marcante, foi um divisor de águas, ninguém esperava”, diz. Naquela noite, mais de 30 homens, com alto poder bélico, sitiaram a cidade e assaltaram os bancos. Antes do assalto aos bancos, os homens fizeram terror pela cidade, atacando também o batalhão da polícia, no qual a estrutura recebeu mais de 200 disparos de arma de fogo.

Dimitri lembra que nesta ocorrência a Polícia Militar foi muito criticada por algumas pessoas por não ter “reagido”. No entanto, o coronel lembra que foi a melhor decisão, já que o objetivo era salvar vidas. “Eu não iria me perdoar, nem os meus policiais, se tivesse civis feridos e mortos. A gente já tem a consciência muito pesada do soldado Esmeraldino ter sido baleado naquela ocorrência, tu imagina se fosse ao contrário. Então, basicamente, meus parabéns para as equipes, para as ações, para os policiais, para a população”, ressalta.

Preparo

Diante de tantas ocorrências, os policiais precisam saber lidar com as situações, principalmente com o emocional. Conforme o coronel, são realizados diversos testes no ingresso do policial militar, tanto intelectual, médico, físico, odontológico e psicológico. Após formado, os policiais contam com o apoio do médico, psicólogo e assistente social nas ocorrências mais graves. Além disso, existe o Programa de Gerenciamento de Estresse Pós-traumático, que presta apoio aos policiais que passam por algum nível de estresse, até serem liberados para o retorno das atividades.

Em muitas ocorrências, a vida do policial e de seus colegas ficam em risco, não só por terceiros, mas devido a situações do ambiente. “Ele tem que ter o medo controlado. Nos treinamentos de táticas policiais, de rádio patrulha, operações especiais, ações táticas, a gente aprende a controlar o medo de altura, porque faz rapel de cem metros, aprende a controlar o medo de ambientes confinados, gás lacrimogênio, animais peçonhentos, água, muita água”, comenta. “Tem muita coisa que a gente passa no curso que o pessoal não entende às vezes”, completa.

A família

O policial militar jura em defender a sociedade. “Muitos feriados, muitas festas de final de ano, de réveillon, passamos trabalhando com a tropa, escola de 24 horas, viramos a noite toda, a madrugada rondando, protegendo a sociedade”, destaca. Dimitri frisa ainda que a sua esposa, Leila, foi o porto seguro para que continuasse na carreira militar. “Quando eu tive a oportunidade de ingressar na Força Nacional, não foram raras as vezes que a Leila, grávida com um filho pequeno, ficou um mês, dois meses, em casa, sem a minha presença”, fala.

Em 2007, Dimitri participou das operações dos Jogos Pan-Americanos, passando 60 dias no Complexo do Alemão. “O que passava na minha cabeça como tenente: deixar uma pasta para a minha esposa, com tudo o que eu tinha ali e que ela deveria seguir passo a passo se eu não voltasse. Seguro de vida, casa, carro, a pastinha estava pronta, e ela sabia disso que eu tô falando, não só eu, a esposa de muitos militares que fizeram o curso fora e ficaram fora, é assim a vida”, frisa. “Isso é ter amor à profissão, sabendo que tu pode não voltar”. Dimitri destaca a fala de um comandante da Força Expedicionária Brasileira que falava que a farda não se veste com facilidade, porque é uma segunda pele que se adere a alma de forma irreversível.

Produção e edição: Gustavo Marques

Por Karine Possamai Della / Rádio Marconi FM