Quando uma pessoa sente dores físicas, a primeira coisa que se pensa é logo ir ao médico. Só que, para muitos, o mesmo não vale para questões relacionadas a saúde mental. “A maioria das pessoas são analfabetas emocionais”, declara o doutor Nelio Tombini, especialista na área da psiquiatria há mais de 30 anos. Tombini explica que muitas pessoas se sentem esgotadas, aborrecidas, passando por momentos de sofrimento e não sabem o porquê disso. Para o psiquiatra, isso se deve a pouca intimidade com a vida emocional. “Na grande maioria dos casos são problemas emocionais que vão inundando a mente das pessoas e elas não percebem que estão atrapalhando”, comenta.

Os sintomas de problemas emocionais são considerados mais complicados. Tombini ressalta que eles não são palpáveis, como uma dor de cabeça ou uma febre. “Os sintomas que aparecem quando a pessoa está mal é na área do abatimento, do desânimo, da tristeza, da depressão. Ou na área da ansiedade, o que é a ansiedade? Às vezes a pessoa fala demais, não dorme, soa demais, dor no peito, pode ter diarreia, pode ter sensação de falta de ar”, afirma. “Então são essas duas vertentes. Então a pessoa tem que dar conta porque ela tem o sofrimento e não se percebe doente”, completa.

Tombini escreveu dois livros sobre a temática. O primeiro se chama “A Arte de Ser Infeliz”, e o segundo “Não Deixe a Vida te Maltratar”. Em suas obras, o psiquiatra fala sobre questões emocionais que norteiam a vida de praticamente todas as pessoas. O programa Ponto de Encontro abordou mais sobre a área em entrevista com o doutor Nelio. Ouça na íntegra:

 

Em um exemplo que está em seus livros, Tombini falou sobre o ditado “para bom entendedor, meia palavra basta”. Para o especialista, meia palavra não basta. “Porque quando se usa meia palavra tu quer que o outro que está te ouvindo entenda. E o outro vai entender do jeito dele”, esclarece o doutor. “As crianças que têm na cabeça isso de achar que elas fazendo cara feia, que elas emburrando, que não querem comer, que o pai e a mãe vão descobrir isso. Agora, tem adultos que crescem com essa ideia de que os outros vão descobrir o que eles estão pensando. Então, na vida não dá para usar meias palavras, tem que ser claro”, frisa.

Outro ponto abordado em suas obras é a questão do trabalho. Existe um termo que está sendo muito debatido que é a pessoa workaholic, ou, o viciado em trabalho. Tombini esclarece que existem pessoas que gostam de trabalhar, o que é normal, já que elas se sentem felizes com o seu trabalho. O problema começa quando ela somente faz isso. “Tem pessoas que usam o trabalho porque não conseguem tirar proveito de outras coisas na vida”, comenta. “A pessoa só consegue trabalhar, ela não consegue ir em uma festa se divertir, não consegue ir ao cinema se divertir, não consegue ir a um baile, não consegue jantar, não consegue ler um livro. Então ela fica prisioneira no trabalho”, completa.

Na mesma linha, existem também as pessoas que procuram outros meios para sentir a diversão e o descanso após um dia de trabalho, muitos deles são o consumo de bebidas alcoólicas. “São as pessoas que chegam em casa no fim de tarde e dizem mais ou menos isso ‘Ah, que maravilha, fiquei em casa e tenho que tomar uma cervejinha para relaxar’. Alguma coisa não está bem na vida dessa pessoa, né? Porque pode tomar uma cervejinha, mas não para relaxar no fim do dia, porque se não a vida vai ficar pesada, e um dos grandes problemas do ser humano é a bebida”, ressalta.

Assim como outras drogas, o álcool também causa dependências que estão ligadas ao emocional. “As pessoas bebem o álcool, basicamente, para tirar suas tensões, para tirar suas angústias, seus nervosismos, suas chateações, a sua timidez”, afirma. O especialista reforça que o uso do álcool acaba gerando mais problemas. “Eles não se dão conta, não se percebem doentes, é a família que se queixa e que sente que as coisas vão mal. Então é uma coisa terrível. O cara que tem uma doença que é uma dependência do álcool, da maconha ou cocaína, não se dá conta que está doente, e como que ele vai procurar ajuda se ele não se dá conta que está doente?”.

Sobre o especialista

Nelio Tombini é médico desde 1972, formou-se como cirurgião trabalhando por três anos numa pequena cidade do Rio Grande do Sul. Devido à necessidade, também atendia como anestesista, clínico, pediatra, obstetra e ortopedista. Após cinco anos, especializou-se em psiquiatria. Foi responsável por 22 anos pela psiquiatria da Santa Casa de Porto Alegre, onde criou o pioneiro serviço de doenças afetivas/humor. Nessa instituição oferecia terapia de grupo para pacientes do SUS. Também trabalhou com grupos de dependentes químicos, grupos psicoterápicos junto ao Tribunal de Justiça-RS e homens com medidas protetivas por agressão a mulheres – Lei Maria da Penha. Fundou a Psicobreve há 32 anos, focada em terapias breves. Psicoterapeuta individual, de casal e de grupos. Desenvolve projeto psicoeducativo por meio de palestras, workshops e vídeos no YouTube, e também é autor do livro A arte de ser infeliz.