Próximo de se completar duas semanas desde o início da invasão russa na Ucrânia, milhares de brasileiros acompanham os novos desdobramentos todos os dias. Muitos ainda têm dúvidas sobre quais serão os rumos dos embates e outros ainda até se perguntam se há possibilidade do Brasil entrar no conflito. Pensando nisso, o programa Ponto de Encontro abordou o assunto em entrevista com o coronel de comunicações Alexandre Santana Moreira e o coronel de infantaria Jauro Francisco da Silva Filho, ambos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Acompanhe a conversa na íntegra:

 

Moreira explicou que a operação logística é fundamental para a manutenção de qualquer conflito estudado. “Quando falamos de logística nós temos que entender que ela se baseia em quatro palavras muito fortes: é gerar essa capacidade, então eu tenho que juntar aqueles meios, poder me desdobrar, eu tenho que levar aquilo até a ponta da linha, até onde está a necessidade, e eu tenho que sustentar, eu tenho que manter aquilo ao longo de tempo, para que depois, no final desse conflito, eu possa voltar com esses meios para a retaguarda”, comentou o coronel. Conforme Moreira, o gerar, desdobrar e sustentar é uma das dificuldades naturais da Rússia ao entrar no território ucraniano, já que o país é grande e possui muitas elevações, o que dificulta no avanço e parada das tropas russas.

O coronel Jauro também esclareceu que, de acordo com estudos, a Rússia não utilizou mais forças aéreas com intensidade porque o país está tendo com a força terrestre liberdade de ação, ou seja, militares russos conseguem avançar pelo país devido a uma ação menor das forças aéreas ucranianas. “Por conta disso, não está sendo necessário nesse momento, o emprego mais massivo da força aérea russa contra a Ucrânia. Imagina-se que os russos possam estar preservando a sua força aérea para um segundo momento, se é que esse segundo momento irá ocorrer, que seria contra forças superiores, contra aliança da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e por aí vai”, acrescentou.

Foto: Reprodução / JP News

Sobre se houve erros de cálculos por parte dos militares russos, Jauro acredita que provavelmente existiu um planejamento antes. “É muito possível que tudo o que está acontecendo já estava previsto nos planos russos”, afirmou. Para o coronel, a Rússia deve ter estudado linhas de ação e possíveis reações por parte da Ucrânia. “Os dois lados estavam se preparando, agora, quem vai vencer ou não, é difícil sempre a gente dizer, pensar ou falar, porque esse imponderável é algo que não dá de se prever exatamente”, acrescentou o coronel Moreira.

A respeito das mortes de soldados de ambos os países, os coronéis explicaram que há somente informações de fontes abertas, seja por parte do governo ucraniano ou russo. A Ucrânia afirma que já morreram cerca de 11 mil soldados russos, a Rússia diz que perdeu aproximadamente 500 soldados. Moreira ressaltou que isso faz parte da chamada névoa de guerra, ou seja, a desinformação que é usada para confundir ambos os lados do conflito. Porém, 11 mil mortos é um número elevado de mais e 500 é um número baixo.

Um possível conflito nuclear também preocupa muitas pessoas. Jauro explicou que há dois termos que se pode usar nessa ocasião: a possibilidade e a probabilidade. “A possibilidade existe, de grosso modo falando, basta que alguém vá lá e aperte o botão para um emprego de armas nucleares. Porém, a probabilidade, no momento, analisando os conflitos contemporâneos, é reduzida. Ela é citada, logicamente pela Rússia em particular, mas se acredita que isso faz parte de uma estratégia indireta da Rússia de dissuasão para uma pressão, objetivando isso nesse conflito com a Ucrânia”, esclareceu.

Os coronéis também explicaram sobre a possibilidade do Brasil participam do conflito. O país tem um comportamento já antigo com as relações internacionais, que é o pragmatismo. “Isso faz com que nós mantenhamos relações com países que possamos ter qualquer tipo de desavença teórica, mas mantemos as relações comerciais com esses países”, comentou. O Brasil possui várias relações tanto com a Ucrânia como com a Rússia em diversos setores. “Apesar do Brasil ter se apresentado no Conselho de Segurança contra esse conflito, as relações diplomáticas continuam, as relações comerciais. Então esse pragmatismo responsável é exercido no Brasil hoje, como já foi exercido em toda a sua história no passado”, completou Moreira.

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