Na última terça-feira (29), a equipe do Projeto ProFRANCA/Instituto Australis registrou o primeiro filhote de baleia-franca em Santa Catarina nesta temporada reprodutiva. O filhote estava acompanhando da mãe, na Praia da Ibiraquera, em Imbituba. A análise das imagens captadas com auxílio de um drone pela equipe do Projeto ProFRANCA, que conta com patrocínio Petrobras, permitiu observar o tamanho pequeno do filhote em relação à mãe, a coloração acinzentada e o comportamento, indicativos de que se trata de um filhote com poucos dias de vida. A temporada 2021 iniciou cedo, com o primeiro registro da chegada das baleias-franca ocorrido no dia 12 de junho, e a presença de filhotes normalmente é observada a partir da segunda quinzena de julho.

“Estas imagens de drone são importantes, pois a partir delas conseguimos observar melhor alguns aspectos comportamentais das baleias, reconhecer filhotes recém-nascidos, além de realizar a fotoidentificação individual dos primeiros animais que chegam na região, o que sem o drone não seria possível”, relata Eduardo Renault, gerente do ProFRANCA/Instituto Australis.

Baleias Catalogadas

A identidade das primeiras baleias-franca registradas na temporada no dia 12 de junho já foi analisada. Tratavam-se de duas fêmeas, que já haviam sido catalogadas pela Instituição em anos anteriores. “A baleia mais antiga é a de número B523, que foi catalogada em 2008, reavistada em 2012 e 2018, quando estava com um filhote. A segunda baleia é a B577, que foi catalogada em 2013, e reavistada em 2016, e nas duas oportunidades estava com filhote. Com isso, já podemos inferir que as duas baleias possivelmente estejam grávidas, e quem sabe conseguimos reavistá-las com filhote nas próximas semanas”, explicou a diretoria do projeto, Karina Groch.

O programa Ponto de Encontro abordou sobre o assunto com a diretora do ProFRANCA, Karina Groch. Ouça na íntegra:

 

Em 2021, a equipe do ProFRANCA espera receber a visita de baleias-franca que estiveram no Brasil em 2018, uma vez que elas retornam para a área reprodutiva a cada 3 anos O registro da baleia B523 já confirma esta expectativa. “A temporada 2018 foi recorde de ocorrência de baleias no sul do Brasil, mas ainda é muito cedo para tirarmos qualquer conclusão no sentido de saber se este ano o recorde irá se repetir. A partir de julho iremos iniciar varreduras semanais ao longo da região, mas o monitoramento terrestre diário de pontos fixos com auxílio dos estagiários terá início somente em agosto, onde poderemos obter mais informações sobre a ocorrência da espécie na região e aí sim poderemos traçar hipóteses sobre o andamento desta temporada reprodutiva”, acrescenta Eduardo.

Monitoramento terrestre

Neste ano, o monitoramento terrestre do Projeto ProFRANCA será realizado em 15 praias no sul de Santa Catarina. Esse monitoramento terá auxilio de 15 estagiários que chegarão em Imbituba a partir da terceira semana de julho. Todos vão participar de um treinamento de duas semanas para dar início ao monitoramento sistemático. Este esforço de monitoramento só é possível através do patrocino Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, e da parceria do Projeto com pousadas e hotéis da região, bem como uma nova parceria que está sendo iniciada com a Prefeitura do município de Palhoça.

Temporada reprodutiva

A temporada das baleias-franca normalmente vai de julho a novembro, com pico de ocorrência em setembro, porém algumas baleias podem chegar mais cedo, passar pela região, ou até mesmo já permanecer nas enseadas, no caso de fêmeas após o nascimento dos filhotes.

O monitoramento a partir de terra é uma das ações do ProFRANCA. O monitoramento sistemático está previsto para iniciar em agosto, quando, com auxílio de nossa equipe de estagiários, iremos monitorar desde o Cabo de Santa Marta, em Laguna, até a praia da Pinheira, em Palhoça.

Saiba como diferenciar as baleias-jubarte das baleias-franca

Enquanto as baleias-franca utilizam a costa de Santa Catarina para ter seus filhotes, as baleias-jubarte migram até o sul da Bahia. A ocorrência das baleias-jubarte no litoral catarinense não é rara, já que estes animais passam pela região durante a migração, entretanto neste ano um fenômeno atípico aconteceu, um grande número desta espécie está sendo avistado próximo à costa.

Durante o período migratório, as baleias Jubarte se deslocam da região Antártica para o sul da Bahia e norte do Espírito Santo, então consequentemente o litoral catarinense pode fazer parte da rota migratória desta espécie, mas o por que elas se aproximaram tanto da costa e por que estão permanecendo na região é motivo de investigação.

 

“Não podemos excluir também o fato de que a presença das jubartes na região pode estar associada a fenômenos oceanográficos. A temperatura da água do mar durante o outono e início do inverno de 2021 estavam consideravelmente acima da média, o que pode ter incentivado esses animais a se aproximarem da costa”, explica Karina.

Outra hipótese levantada por pesquisadores é que devida a atual recuperação populacional, as baleias-jubarte estão ocupando novas áreas. “Sabemos que as baleias-jubarte apresentam um crescimento populacional consideravelmente superior ao das baleias-franca. Enquanto as francas crescem a uma taxa de 4,8% ao ano, as baleias-jubarte apresentam taxas que chegam a 12%. E este crescimento mais acelerado pode ocorrer pelo fato das jubartes possuírem ciclos reprodutivos menores, podendo ter um filhote a cada dois anos enquanto as baleias-franca possuem um filhote a cada três anos”, esclarece Eduardo.

Atualmente a população de baleias-jubarte está estimada em mais de 20 mil indivíduos e a ocorrência no litoral catarinense pode ser uma resposta a este crescimento. Já a população de baleias-franca está estimada em aproximadamente 550 fêmeas reprodutivas. Estudos com outros cetáceos indicam a existência de áreas ideais para a reprodução, onde existiria uma maior concentração de mães com filhotes, e as regiões periféricas a este núcleo, seriam ocupadas por indivíduos de outras classes, como, juvenis. “Podemos levantar a hipótese que em 2021 o litoral catarinense trata-se de uma destas regiões periféricas, o que inclusive é suportado pelo fato da maioria dos indivíduos que tem sido avistados se tratar de baleias-jubarte juvenis. Porém ainda estamos no início da temporada reprodutiva de baleias no Brasil para darmos suporte a esta hipótese”, afirma Eduardo.

 

Colaboração: Guilherme Comodo / Comunicação Instituto Australis